País recebeu 6,45 milhões de visitantes internacionais até agosto, mas distância, segurança, custos e infraestrutura ainda limitam a transformação do enorme potencial turístico brasileiro em um fluxo de escala mundial.
Da Redação (*)
Brasília – O Brasil tem motivos para comemorar — mas também algumas perguntas a responder. Nos primeiros oito meses de 2026, o país recebeu 6,45 milhões de turistas internacionais, segundo dados da Embratur, do Ministério do Turismo e da Polícia Federal. Só em agosto foram 576.276 visitantes, praticamente o mesmo número registrado no mesmo mês de 2025.
O resultado mantém a trajetória de crescimento do turismo estrangeiro. Em 2025, o país recebeu 9,29 milhões de visitantes internacionais, recorde da série histórica e 37% acima do resultado de 2024.
Mas há uma maneira menos triunfalista de olhar para os números. Em 2024, França e Espanha receberam, respectivamente, cerca de 102 milhões e 93,8 milhões de turistas internacionais. Os Estados Unidos chegaram a 72,4 milhões. Turquia e Itália passaram dos 57 milhões. O Brasil, com 6,77 milhões naquele ano, ficou próximo da 30ª posição mundial.
A comparação não é inteiramente justa: França e Espanha estão no centro de uma Europa altamente conectada, enquanto o Brasil é um país continental, distante dos principais mercados emissores. Ainda assim, ela revela a dimensão do desafio.
O Brasil não tem falta de atrações. Tem dificuldade para transformar atrações em uma experiência turística internacional competitiva.
O primeiro desafio é chegar
A geografia brasileira é uma barreira que não pode ser eliminada. Pode, entretanto, ser compensada.
Para europeus e asiáticos, uma viagem ao Brasil significa muitas horas de avião e, em diversos casos, conexões. Por isso, ampliar voos diretos e frequências internacionais é uma das medidas mais importantes para o setor.
Em 2025, cerca de dois terços dos turistas estrangeiros chegaram ao país por via aérea. A expansão de rotas internacionais ajudou a impulsionar o fluxo.
A equação é simples: não existe campanha de promoção capaz de substituir um voo que não existe.
O Brasil precisa estar mais conectado aos grandes centros emissores e, principalmente, tornar mais fácil a chegada a destinos que ficam fora do eixo Rio-São Paulo.
O turista chega. E depois?
O problema seguinte começa quando o estrangeiro deixa o aeroporto.
O Brasil tem hotéis sofisticados, restaurantes de padrão internacional, operadores experientes e destinos muito bem estruturados. Mas também há regiões onde o turista encontra transporte precário, estradas ruins, sinalização deficiente, pouca informação em outros idiomas, problemas de acessibilidade e serviços irregulares.
Essa desigualdade é especialmente prejudicial porque o turista não avalia apenas a beleza de uma atração. Ele avalia a viagem inteira.
Uma praia espetacular perde parte do encanto quando chegar até ela é difícil. Uma cidade histórica não entrega todo o seu potencial se faltam informações e transporte. Um destino de natureza extraordinário precisa de acesso, segurança e estrutura para receber visitantes sem destruir justamente aquilo que os atraiu.
Segurança também vende — ou afasta
Existe ainda um problema que nenhuma campanha publicitária resolve: segurança.
O Brasil não pode ser resumido à violência, e milhões de estrangeiros visitam o país sem enfrentar problemas. Mas furtos, roubos, golpes e episódios de violência em áreas frequentadas por turistas podem afetar a percepção internacional do destino.
Para quem escolhe onde passar férias, sensação de segurança faz parte do produto.
Policiamento especializado, atendimento ao turista em outros idiomas, iluminação, transporte seguro e resposta rápida a ocorrências deveriam fazer parte da política turística tanto quanto campanhas no exterior.
Segurança turística não é apenas questão policial. É infraestrutura para o visitante.
E quanto custa a experiência brasileira?
O preço é outro ponto delicado.
O Brasil não precisa ser um destino barato. Países como França, Japão e Estados Unidos não construíram sua força turística apenas oferecendo preços baixos. O visitante, porém, precisa perceber valor pelo que paga.
Passagens internacionais, voos domésticos, hotéis, alimentação e deslocamentos podem tornar uma viagem brasileira cara. E a dimensão continental do país pesa: quem deseja combinar Rio, Amazônia e Nordeste está, na prática, comprando várias viagens dentro da mesma viagem.
A pergunta, portanto, não deveria ser apenas quanto custa conhecer o Brasil, mas o que o turista recebe em troca desse dinheiro.
O que o Brasil tem — e poucos conseguem copiar
É justamente aí que aparece a maior vantagem brasileira.
Poucos países conseguem reunir, em um único território, Amazônia, Pantanal, praias tropicais, montanhas, florestas, cidades históricas, grandes metrópoles, gastronomia regional, música e uma diversidade cultural tão grande.
O Brasil não precisa inventar um produto turístico. Já possui vários.
Precisa organizar melhor a oferta, facilitar o acesso, qualificar os serviços e fazer com que o visitante descubra mais de um destino durante a mesma viagem.
Também precisa diversificar sua clientela. A Argentina continua sendo, de longe, o principal mercado emissor para o Brasil, seguida por Chile e Estados Unidos. A concentração regional ajuda a sustentar o fluxo, mas mostra que ainda existe espaço enorme para conquistar europeus, norte-americanos e asiáticos.
O crescimento dos visitantes chineses é um sinal interessante: entre janeiro e agosto de 2026, foram 113 mil, 73,3% acima do mesmo período de 2025. O número é expressivo em termos de crescimento, mas ainda pequeno diante do tamanho daquele mercado.
Turistas chineses, um capítulo à parte
Segundo especialistas, a isenção recíproca de vistos entre Brasil e China, em vigor desde maio de 2026 para viagens de até 30 dias, representa um marco para ampliar o fluxo de turistas chineses.
O governo brasileiro deve transformar essa facilidade em uma ampla campanha de promoção turística na China, utilizando plataformas como WeChat, Douyin e Xiaohongshu.
É fundamental ampliar a conectividade aérea, estimulando novos voos diretos entre o Brasil e grandes centros chineses, além de melhorar as conexões por meio de hubs internacionais.
Os especialistas indicam ainda que a Embratur deve fortalecer parcerias com companhias aéreas, hotéis, operadoras e grandes plataformas chinesas de turismo, como Ctrip e Fliggy. Também é necessário capacitar milhares de agentes de viagens chineses para vender destinos brasileiros e ampliar programas de treinamento em mandarim.
O Brasil poderia criar uma certificação “China Friendly” para hotéis, restaurantes, aeroportos e atrações preparados para receber esse público.
A aceitação de meios de pagamento amplamente utilizados na China, como Alipay e WeChat Pay, deve ser expandida em toda a cadeia turística.
Informações turísticas, sinalização e serviços de atendimento em mandarim também precisam ser ampliados nos principais destinos.
O país deve desenvolver roteiros específicos para o mercado chinês, combinando Amazônia, Cataratas do Iguaçu, Rio de Janeiro, praias, Carnaval, futebol, gastronomia e turismo de luxo.
Viagens de familiarização para jornalistas, influenciadores e operadores chineses podem multiplicar a divulgação espontânea do Brasil nas redes sociais.
A estratégia deve priorizar também turistas de maior poder aquisitivo, interessados em experiências exclusivas, natureza, gastronomia, compras e hotéis de alto padrão.
Por fim, destacam, é importante estabelecer metas plurianuais de chegadas, gasto médio, permanência e satisfação dos visitantes. Combinadas, essas medidas podem transformar a atual expansão do turismo chinês em uma política permanente de aproximação entre os dois países.
(*) Com informações da Embratur







