Dados do ICOMEX, da FGV IBRE divulgado hoje (15), mostram que o petróleo respondeu por 49,4% do superávit acumulado pelo Brasil até agosto; China e União Europeia ajudam a compensar perda de espaço nos Estados Unidos
Da Redação (*)
Brasília – O petróleo ganhou ainda mais importância na balança comercial brasileira em 2026. O produto, que já ocupa uma das primeiras posições na pauta de exportações do país, respondeu por praticamente metade do superávit comercial acumulado até agosto.
De acordo com análise do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV IBRE), divulgada pelo ICOMEX, o Brasil acumulou US$ 55,3 bilhões de superávit na balança comercial nos oito primeiros meses do ano. O resultado é US$ 12,2 bilhões superior ao registrado no mesmo período de 2025.
O setor de petróleo foi responsável por US$ 27,3 bilhões desse resultado. O valor corresponde a 49,4% de todo o superávit comercial brasileiro no período.
O cálculo considera o saldo de US$ 32,3 bilhões obtido com o petróleo bruto, descontado o déficit de US$ 4,9 bilhões registrado nas operações com derivados.
No mesmo período de 2025, o saldo do setor havia sido de US$ 20,2 bilhões, equivalente a 46,7% do superávit comercial brasileiro.
O resultado mostra como o petróleo passou a ocupar uma posição estratégica na geração do saldo positivo do comércio exterior brasileiro.
Superávit comercial de US$ 7,4 bilhões em agosto
O Brasil encerrou agosto com superávit comercial de US$ 7,4 bilhões. Com isso, o saldo positivo acumulado no ano chegou a US$ 55,3 bilhões, US$ 12,2 bilhões acima do resultado registrado em igual período de 2025.
Entre os principais parceiros comerciais, China e União Europeia apresentaram melhora no saldo brasileiro. O ganho com a China foi de US$ 5,5 bilhões e, com a União Europeia, de US$ 4,2 bilhões.
Nos Estados Unidos, o déficit comercial brasileiro permaneceu praticamente inalterado, em US$ 3,2 bilhões.
Já com a Argentina, o superávit caiu de US$ 4,1 bilhões para US$ 1,6 bilhão.
Os números mostram uma mudança importante na geografia do comércio brasileiro. Enquanto a relação comercial com os Estados Unidos continua sendo afetada pelas barreiras tarifárias, outros mercados vêm ajudando a sustentar o desempenho das exportações.
China reduz compras em agosto mas resultado do ano segue positivo
A China continua sendo o principal destino das exportações brasileiras, mas agosto apresentou uma retração significativa.
As exportações para o país asiático caíram 10,9% em relação a agosto de 2025. A participação chinesa nas exportações totais do Brasil diminuiu de 31,7% para 25,2%.
Os três principais produtos exportados para a China — soja, petróleo e minério de ferro — registraram queda em valor.
As vendas de soja recuaram 4,7%; as de petróleo, 6,3%; e as de minério de ferro, 11%. Juntos, esses três produtos responderam por 79,8% das exportações brasileiras para o mercado chinês.
A carne bovina apresentou retração ainda mais expressiva, de 89,6%.
Segundo a análise do FGV IBRE, o resultado está relacionado ao esgotamento da cota de carne bovina submetida a uma tarifa de 12%. Para as vendas acima da cota, a tarifa é de 55%.
Em volume, as exportações brasileiras para a China caíram 17,3% em agosto na comparação com o mesmo mês de 2025.
Quando o horizonte é ampliado para o acumulado do ano, entretanto, o cenário muda. Até agosto, o volume exportado para a China cresceu 4%, enquanto as importações aumentaram 8,8%. Em valor, as exportações brasileiras para o país asiático avançaram 15%.
Ou seja, a queda observada em agosto ainda não representa uma reversão da tendência positiva registrada nas vendas ao longo do ano.
Exportações para os EUA crescem em agosto mas acumulado do ano segue negativo
As exportações brasileiras para os Estados Unidos aumentaram 12,1% em valor em agosto, enquanto o volume cresceu apenas 1,6%.
O resultado foi influenciado pelo aumento de 10,3% nos preços e pela base de comparação. Em agosto de 2025, havia começado a aplicação da tarifa de 50%, o que reduziu o valor das exportações brasileiras naquele período.
No acumulado de janeiro a agosto, porém, as vendas para os Estados Unidos apresentaram queda de 9,7% em valor e de 13,8% em volume.
Para o FGV IBRE, o desempenho das exportações brasileiras como um todo mostra que os chamados “tarifaços” dos Estados Unidos não foram suficientes para provocar uma retração geral das vendas externas.
“Os tarifaços de Trump não levaram a uma queda das exportações brasileiras no total, pois a China e outros parceiros aumentaram suas importações do Brasil”, aponta a análise.
A avaliação, entretanto, não elimina os riscos para os próximos meses.
Um dos pontos de atenção é a possibilidade de um novo entendimento comercial entre Estados Unidos e China. Caso os chineses aumentem significativamente as compras de produtos agropecuários norte-americanos, o Brasil poderá enfrentar maior concorrência justamente em uma de suas principais áreas de exportação.
Crescem exportações de petróleo para a União Europeia
Se a China perdeu força em agosto, a União Europeia apresentou desempenho bastante favorável.
As exportações brasileiras para o bloco cresceram 46,4% em valor. O volume aumentou 32,6% e os preços subiram 10,4%.
Os principais produtos exportados tiveram crescimento de dois dígitos.
O petróleo, que representou 22,8% das exportações brasileiras para a União Europeia, teve aumento de 34,6%.
O minério de cobre registrou crescimento de impressionantes 284% e respondeu por 11,8% das exportações. O café não torrado, com participação de 9,6%, cresceu 30%.
No acumulado do ano até agosto, o volume exportado para a União Europeia aumentou 5,5%, enquanto o volume importado pelo Brasil caiu 7,4%.
Ásia e América do Sul também ganham relevância
Os dados analisados pelo ICOMEX mostram ainda que os países asiáticos, excluindo a China, lideraram em volume as exportações brasileiras.
Na sequência aparece a América do Sul, também excluindo a Argentina.
Além da União Europeia, apenas a América do Sul, sem a Argentina, registrou retração no volume importado pelo Brasil.
Já a Argentina apresentou queda no volume exportado pelo Brasil e aumento das importações, contribuindo para a redução do superávit bilateral.
Exportações crescem mais que importações
Considerando o comércio exterior como um todo, o desempenho brasileiro em agosto foi positivo.
As exportações totais aumentaram 12,2% em valor na comparação com agosto de 2025. As importações cresceram 9,2%.
No acumulado de janeiro a agosto, as exportações avançaram 10,3% em valor, enquanto as importações cresceram 6,1%.
O volume exportado aumentou 2,7% no acumulado do ano e 2% somente em agosto.
Os preços das exportações subiram 10,1% em agosto e 7,1% no acumulado do ano.
Do lado das importações, o volume cresceu 2,6% em agosto e 0,5% no acumulado até agosto. Os preços de importação aumentaram 6,5% no mês e 5,5% no acumulado.
Petróleo supera soja em agosto
A disputa entre petróleo e soja pelo topo da pauta exportadora brasileira ficou mais evidente em agosto.
O petróleo bruto respondeu por 14,6% das exportações totais, superando a soja, com 13,3%.
No acumulado do ano, entretanto, a soja permanece na liderança, com 15,7% de participação, contra 14,7% do petróleo.
O minério de ferro aparece em terceiro lugar, com participação de 7,1% em agosto e 7,3% no acumulado.
Na sequência estão os óleos combustíveis e a carne bovina.
É no resultado financeiro que a importância do petróleo fica mais evidente.
O saldo comercial do petróleo bruto chegou a US$ 32,3 bilhões entre janeiro e agosto.
Como o Brasil registrou déficit de US$ 4,9 bilhões com derivados de petróleo, o saldo líquido do setor ficou em US$ 27,3 bilhões.
Esse valor corresponde a 49,4% do superávit comercial total de US$ 55,3 bilhões acumulado pelo Brasil até agosto.
No mesmo período de 2025, o saldo do petróleo bruto havia sido de US$ 25,2 bilhões. Descontado o déficit de US$ 5 bilhões com derivados, o resultado líquido era de US$ 20,2 bilhões, equivalente a 46,7% do superávit daquele período.
O petróleo, portanto, não apenas mantém sua importância na pauta exportadora: sua contribuição para o saldo comercial aumentou em relação ao ano passado.
Carros elétricos inflam importações de bens duráveis
Um dos movimentos mais expressivos nas importações da indústria de transformação ocorreu entre os bens duráveis.
No acumulado do ano até agosto, o volume importado de bens duráveis aumentou 70%.
Segundo o ICOMEX, o resultado pode ser explicado pela antecipação de compras de carros elétricos diante da expectativa de aumento das tarifas de importação desses veículos para 35% em julho.
Os automóveis aparecem em terceiro lugar entre os 12 principais produtos importados no acumulado do ano até agosto.
Em agosto, porém, os automóveis já não aparecem na lista dos principais produtos importados.
Desafio é transformar vantagem em estratégia
Os resultados até agosto indicam que a melhora do superávit comercial brasileiro em 2026 em relação a 2025 está praticamente assegurada.
O Brasil conseguiu manter o crescimento das exportações mesmo com as barreiras comerciais americanas, graças à ampliação das compras de outros parceiros.
China, União Europeia e outros mercados ajudaram a compensar parte da perda de espaço nos Estados Unidos.
Mas existe um ponto de atenção. A relação comercial entre Estados Unidos e China poderá influenciar diretamente as exportações brasileiras.
O FGV IBRE chama atenção para a possibilidade de um acordo entre os presidentes dos dois países que leve a China a aumentar as compras de produtos agropecuários dos Estados Unidos, como já ocorreu durante o primeiro governo Trump.
Caso isso aconteça, o Brasil poderá enfrentar maior concorrência justamente em mercados importantes para sua pauta exportadora.
(*) Com informações da FGV/IBRE/ICOMEX







