Apesar das diferenças entre as propostas econômicas dos candidatos, vantagens tributárias, trabalhistas e energéticas do país vizinho devem continuar atraindo investimentos. Para fundadora da Frontexa, integração produtiva pode ajudar empresas brasileiras a enfrentar a concorrência chinesa e fortalecer o Mercosul
Da Redação
Brasília – A combinação de incentivos fiscais, mão de obra e energia mais baratas, além de menos burocracia, tem levado empresas brasileiras a expandir suas operações para o Paraguai. O movimento reflete uma estratégia de busca de maior competitividade, favorecida também pela participação do país vizinho no Mercosul, que oferece vantagens comerciais para empresas que têm o Brasil como principal mercado consumidor. Para Suelen Raizer, fundadora da Frontexa, essa expansão deve continuar independentemente de quem vencer a disputa presidencial entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).
Embora os dois candidatos apresentem propostas econômicas distintas, a especialista avalia como pouco provável que até mesmo uma redução de impostos e custos de produção no Brasil elimine as vantagens competitivas oferecidas pelo Paraguai e os benefícios de expandir a produção para o país vizinho.
O avanço das indústrias brasileiras no Paraguai também ganhou espaço no debate político e nas redes sociais, frequentemente associado a críticas à política econômica do governo Lula. Algumas publicações chegaram a atribuir ao atual governo a saída de centenas de empresas do Brasil, embora verificações independentes tenham mostrado que os números incluem operações instaladas no Paraguai ao longo de diferentes governos, muitas delas sem o fechamento de fábricas brasileiras.
Para Suelen, o Paraguai não deve ser visto como um problema, mas como uma oportunidade para fortalecer o Mercosul e ajudar as empresas brasileiras a enfrentar a concorrência chinesa e competir em outros mercados.
“É menos uma história de substituição de um país pelo outro e mais de reorganização das cadeias produtivas e expansão produtiva”, afirma a especialista, citando como exemplo a Lupo, que inaugurou uma fábrica em Ciudad del Este, no ano passado, mas não fechou nenhuma unidade no Brasil.
Produto fica até 60% mais barato se feito no Paraguai
Suelen explica que a economia no custo operacional ao produzir no Paraguai fica, em média, entre 17% e 27%, mas que, em determinados projetos, o preço final chega a ser 60% menor. Entre os setores que têm ampliado atividades no país estão o têxtil, o alimentício, o de plásticos e o de autopeças.
Um dos grandes atrativos é a Lei de Maquila, criada para atrair indústrias voltadas à exportação e à geração de empregos. O regime permite importar insumos e maquinário com suspensão de tributos, além de prever tributação específica de 1% sobre a operação, conforme as regras aplicáveis.
Segundo a Câmara de Empresas Maquiladoras do Paraguai (Cemap), o país possui 339 maquiladoras e aproximadamente 70% do capital instalado no regime é de origem brasileira. Entre janeiro e agosto deste ano, as exportações pelo regime cresceram 26% na comparação com o mesmo período de 2025.
Com o impulso da indústria, o Paraguai tem vivido um “boom” econômico e registrado um crescimento econômico bem acima do Brasil e dos outros países da região. O Banco Mundial elevou para 4,7% a previsão de avanço do PIB (Produto Interno Bruto) do Paraguai em 2026, enquanto projeta que a economia brasileira deve avançar 2,1% no mesmo período.
O que pode mudar com Lula ou Flávio Bolsonaro
Uma pesquisa do FGV Ibre, divulgada em outubro, mostra que 54,2% das empresas brasileiras consultadas apontam a tributação como principal prioridade a ser enfrentada pelo próximo governo. O levantamento evidencia que a competitividade empresarial permanece no centro das preocupações do setor produtivo.
A redução dos custos de produção está entre os temas que diferenciam as propostas econômicas dos candidatos à Presidência.
No plano econômico apresentado por Flávio Bolsonaro, estão previstas medidas como a revisão da reforma tributária, a redução da carga sobre produção e consumo, a diminuição de encargos sobre a energia e iniciativas para reduzir custos trabalhistas e regulatórios.
Já Lula defende a continuidade da Nova Indústria Brasil, política de reindustrialização baseada em financiamento, inovação e modernização produtiva, além de investimentos em infraestrutura e ganhos de produtividade com a consolidação da reforma tributária do consumo.
Raizer avalia que a atratividade da transferência de parte da produção da indústria brasileira para o país vizinho continuará independentemente do resultado das eleições.
“Uma indústria não decide onde produzir apenas olhando quem ocupa a Presidência. Ela compara custos, produtividade, segurança jurídica, logística e acesso a mercados. A política econômica brasileira pode mudar, mas as decisões de investimento precisam considerar condições estruturais e horizontes de longo prazo”, diz a especialista, acrescentando que a decisão de investir no país não é baseada apenas em impostos, mas envolve também mão de obra, logística, custos operacionais e acesso a mercados.
Principais diferenças nas propostas de Lula e Flávio
Importante destacar que o movimento de instalação de empresas brasileiras no Paraguai vem desde o início dos anos 2000 e que, além da parceria comercial, Brasil e Paraguai compartilham outros interesses estratégicos como o tratado da usina hidrelétrica de Itaipu, Mercosul e segurança de fronteira.
“Mesmo que o Brasil reduza sua carga tributária, isso não significa que a equação econômica das indústrias será imediatamente alterada. A competitividade não depende de uma única variável. Enquanto houver vantagens econômicas relevantes na integração das duas estruturas produtivas, o Paraguai continuará sendo considerado nas estratégias de expansão”, diz.
Enquanto o Brasil discute os rumos de sua política tributária e industrial para o próximo mandato, o Paraguai já promoveu uma atualização de seu regime de maquila. A legislação de 2025 manteve incentivos relevantes às operações de exportação e estabeleceu regras específicas para a tributação das atividades enquadradas.
“Nossa leitura é que 2026–2030 pode representar uma das janelas mais relevantes desse processo, antes de uma fase de maior consolidação industrial”, diz.
Parceria com Paraguai ajuda a enfrentar concorrência da China
Segundo Raizer, as indústrias brasileira e paraguaia podem atuar de forma complementar para fortalecer o Mercosul, aumentar a competitividade e reduzir a dependência da Ásia, sobretudo de fornecedores chineses.
“O maior risco para a indústria brasileira não é a produção no Paraguai. É perder competitividade e assistir ao mercado ser ocupado por produtos importados. Em vez de disputar onde uma fábrica deve estar, deveríamos discutir como tornar a indústria sul-americana capaz de competir com as grandes potências industriais”, afirma.
Segundo a fundadora da Frontexa, a melhor estratégia é combinar as capacidades dos países: manter no Brasil atividades e empregos que dependam de competências e mão de obra mais qualificada e realizar no Paraguai as etapas que se beneficiem de custos ou condições locais.
Ela destaca também os ganhos potenciais da futura Rota Bioceânica, prevista para 2028 e que ligará o Oceano Atlântico ao Oceano Pacífico. “Quando ela estiver plenamente operacional, poderá encurtar em até 17 dias o transporte de insumos vindos da China, reduzindo os custos logísticos da produção e exportação do Mercosul”, afirma.
Na avaliação da especialista, a discussão sobre competitividade industrial precisa ir além da tentativa de impedir que empresas brasileiras invistam no exterior. “Paraguai e Brasil podem trabalhar juntos, e os dois tendem a ganhar. Não é uma questão partidária, é oportunidade para as marcas brasileiras ganharem competitividade. A gente só tende a ganhar crescendo os nossos vizinhos”, conclui.







