A China que vi, a China que meus filhos confirmaram

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Maurilio Biagi Filho (*)

Minha primeira viagem à China foi em 1982. E confesso que voltei de lá com pena. A China que encontrei naquela época era de uma pobreza que impressionava profundamente. Em Pequim, só havia prédios antigos, sem nenhum sinal de modernidade na paisagem. Todos os chineses, homens e mulheres, vestiam roupas iguais, simples, sem cores ou marcas que diferenciassem uns dos outros. Era uma sociedade extremamente pobre, com uma população enorme, uma renda per capita muito inferior à nossa e controle rígido de natalidade. O Brasil era economicamente maior que a China. Naquela época, o que a China tinha a mais do que o Brasil era só gente.

Quando voltei, a certeza que trouxe foi de que estávamos muito à frente deles. Não havia razão, naquela época, para imaginar a transformação que aquele país seria capaz de realizar nas décadas seguintes. Voltei à China em 1993 e tive um choque diferente: quase não reconheci o país que havia conhecido pouco mais de dez anos antes. Não tinha IA ainda, mas já eram nítidas as mostras de sua competência e evolução.

Também guardo daquela primeira viagem uma lembrança bastante curiosa e nada agradável. Minha esposa contraiu cólera na China, mas a doença só se manifestou na Tailândia, o que exigiu atendimento de emergência e uma transferência às pressas para um hospital com ala de isolamento total, em Hong Kong. O episódio teve tanta repercussão que chegou a ser notícia no Jornal Nacional, no Brasil, e todos os dias os jornais de Hong Kong atualizavam a notícia. Acabei até contratando uma assessoria de imprensa para ajudar e contei muito com a ajuda do Consulado Brasileiro. O ministro da Saúde de lá levava todo dia remédio para que eu tomasse como prevenção e fazia eu tomar na frente dele. Foram dias muito tensos, Vera permaneceu uma semana em unidade de isolamento e mais uma semana no hotel para recuperação. Foi uma experiência marcante e que, olhando para trás, ajuda a dimensionar a distância entre aquela China e a de hoje.

Foi depois daquela primeira viagem que, ao reuni meus filhos, fiz uma brincadeira que ficou guardada na família. Disse a eles: ou nós não somos gente, ou os chineses não são. Se nós somos gente, eles não são; e, se eles são, então nós é que não somos. É claro que era uma ironia, mas traduzia o meu espanto diante de uma cultura, de um comportamento coletivo e de uma forma de enxergar o mundo profundamente diferentes dos nossos.

Recentemente, Rodrigo e Marcelo estiveram novamente na China. Ao ouvi-los contar sobre a experiência, tive a sensação de que aquilo que vi décadas atrás havia avançado a uma velocidade que eu dificilmente poderia imaginar. A China que conheci em 1982 era um país pobre, com enormes problemas de infraestrutura, saneamento e comportamento. A China que meus filhos encontraram hoje é uma potência consolidada, moderna, tecnológica, eficiente e capaz de transformar planejamento em realidade. E talvez seja justamente essa transformação que mais deveria nos fazer refletir.

Não estou falando em copiar o sistema político chinês. Discordo dele. A China possui sistema de poder centralizado, no qual o Estado exerce um nível de controle sobre a sociedade que seria incompatível com nosso estado democrático de direito. Mas é preciso reconhecer que esse modelo facilita a execução de determinadas políticas de longo prazo, devido à capacidade de decisão e de implementação que dificilmente conseguiríamos aplicar no Brasil.

Mas podemos, e deveríamos ter visão de longo prazo e um projeto de Estado. Esse é um dos pontos que mais me impressionam na China. No Brasil, infelizmente, grande parte dos agentes públicos ainda confunde projeto de governo com projeto de país. A cada quatro anos, começa tudo de novo. O governante anterior deixou uma obra? O seguinte abandona. Criou um programa eficiente? Troca o nome. Iniciou uma política pública importante? O próximo governo desmonta apenas porque nasceu em outra administração. É um desperdício institucional permanente.

Não é falta de inteligência do brasileiro. Muito pelo contrário. O Brasil tem empresários competentes, pesquisadores extraordinários, trabalhadores criativos e capacidade de adaptação reconhecida no mundo. Temos recursos naturais que poucos países possuem, agricultura eficiente, indústria sofisticada em vários segmentos e matriz energética que deveria ser motivo de orgulho. O que nos falta é vontade política e capacidade de olhar além da próxima eleição.

Marcelo destacou algo que merece atenção. Na primeira vez em que esteve em Pequim, em 2013, a poluição era tão intensa que praticamente não se via o céu azul. Agora encontrou outra cidade: ar mais limpo, rios recuperados, pessoas pescando dentro da cidade, avanços no saneamento, na infraestrutura e na transição energética. Não aconteceu por milagre. A China decidiu enfrentar problemas, estabeleceu metas, investiu, executou e corrigiu rumos. Não estou dizendo que tudo esteja resolvido, mas a velocidade da transformação é inegável.

Essa talvez seja uma das maiores lições que podemos tirar: planejamento, disciplina administrativa e capacidade de perseguir objetivos que ultrapassem um mandato. O Brasil tem jeito, sim. E justamente por isso não podemos aceitar como normal o que deveria nos indignar: corrupção, bets, fake news, crescimento do crime organizado, interesses pessoais acima dos coletivos, analfabetismo funcional, dívida pública equivalente a 82% do PIB, entre tantos outros problemas. Mas reconhecer nossas deficiências não significa alimentar outro vício brasileiro: o chamado complexo de vira-latas, que nos leva ora a enaltecer exageradamente as qualidades dos outros países, ignorando seus defeitos e seus contextos, ora a acreditar que somos incapazes de fazer aquilo que outros fizeram. Precisamos enxergar nossos problemas, mas defender nossas qualidades, nossa soberania e, principalmente, nossa capacidade de competir.

É nesse ponto que nossa relação com a China merece atenção especial. Há décadas, repetimos que somos grandes exportadores. E somos. Mas precisamos olhar com mais cuidado para o que exportamos e o que importamos. Exportamos matéria-prima e importamos o produto com valor agregado, tecnologia, design, marca, emprego industrial e margem de lucro. O problema não é vender para a China. O problema é não conseguirmos, em muitos casos, transformar nossas próprias riquezas em produtos de maior valor.

A China é um parceiro fundamental para o Brasil e para o mundo. O erro seria não perceber o que essa relação está nos dizendo. Durante muito tempo, imaginamos a China como uma fábrica de produtos baratos e de baixa qualidade. Conceito ultrapassado. Hoje, os chineses produzem bens de alta qualidade praticamente em todos os setores. Estão na fronteira da tecnologia, dos veículos elétricos e até híbridos a etanol, das baterias, das telecomunicações, dos equipamentos industriais, da inteligência artificial, da energia renovável e de tantas outras áreas. Enquanto isso, ainda há quem, no Brasil, olhe para a China com os olhos anos atrás.

Marcelo resumiu muito bem sua impressão ao definir a China como uma potência de eficiência e um dos principais motores da competitividade global. Concordo. E acrescentaria: é uma potência que entendeu que, no mundo moderno, não basta produzir. É preciso dominar tecnologia, processos, cadeias produtivas e conhecimento. É preciso estar dentro da cadeia de valor, e não apenas na ponta que fornece a matéria-prima.

Por isso, para o empresário brasileiro, a China deixou de ser uma oportunidade ou uma ameaça. Ela é, como disse meu filho, uma inevitabilidade. Podemos gostar mais ou menos do seu sistema político, ter divergências comerciais, criticar práticas e posições internacionais. Tudo isso é legítimo. O que não podemos é ignorar a realidade.

E aqui cabe outra reflexão, talvez com uma dose de ironia. Enquanto parte do mundo se ocupa com tarifaços, ameaças e disputas de poder, e enquanto os EUA transformam a política internacional em um espetáculo permanente, misturando guerras comerciais com ameaças e ambições geopolíticas, a China parece seguir trabalhando silenciosamente. Sem disparar um canhão, conquista mercados. Sem precisar ocupar territórios, ocupa cadeias produtivas. Sem fazer tanto barulho, torna-se indispensável.

Talvez essa seja uma das formas mais eficientes de poder no século XXI: não conquistar o território do outro, mas conquistar sua economia, sua cadeia de suprimentos, sua tecnologia e seus mercados. Enquanto alguns discutem quem será mais forte amanhã, a China investe para ser mais eficiente hoje. E eficiência, repetida durante décadas, acaba se transformando em poder.

O Brasil precisa observar isso com humildade, mas sem submissão. Temos de aprender com aquilo que funciona e confiar mais na nossa própria capacidade de construir um caminho brasileiro. Um caminho que aproveite nossas vantagens, invista em educação, infraestrutura, tecnologia, indústria, inovação e energia e nos permita agregar mais valor ao que produzimos. Precisamos discutir o Brasil de 2050 e 2060, e não apenas o próximo calendário eleitoral.

Quando estive na China pela primeira vez, voltei com pena de um país que parecia muito distante de nós. Hoje, meus filhos voltam de lá impressionados com um país que está muito à frente em diversos aspectos. A história dessas viagens, separadas por mais de quatro décadas, talvez seja a melhor demonstração de que nenhum país está condenado a permanecer onde está. Países mudam. Sociedades mudam. E algumas mudanças acontecem em uma velocidade que ninguém consegue imaginar no começo.

É por isso que, diante de mais uma eleição que se aproxima, talvez valha a pena fazer uma pergunta a nós mesmos: o que estamos fazendo com o Brasil que temos nas mãos? Continuaremos escolhendo pelo benefício imediato, pela promessa mais conveniente, pelo discurso mais barulhento ou pela polarização do momento? Ou começaremos a exigir de quem pretende nos governar algo menos sedutor, porém muito mais importante: competência, seriedade, visão de futuro e um projeto de país que vá além do próximo mandato? Fica a reflexão.

(*) Maurilio Biagi Filho, empresário

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