Inteligência logística protege as exportações do Brasil do protecionismo dos EUA

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Com a tarifa global de 10% e a recente sobretaxa de 25% imposta pelo governo Trump contra o Brasil, o planejamento aduaneiro se torna ferramenta estratégica de proteção para a indústria nacional.

Mateus Bernardes (*)

No “xadrez” do comércio exterior contemporâneo, a relação bilateral entre Brasil e Estados Unidos atravessa um momento de tensão pragmática. Enquanto a corrente de comércio mantém um fluxo histórico forte — que orbita na faixa de US$ 70 bilhões a US$ 80 bilhões anuais —, a agressiva escalada tarifária do segundo mandato de Donald Trump impõe um complexo desafio à rentabilidade das companhias brasileiras. Para o exportador nacional, a eficiência operacional se tornou o principal fator de sobrevivência.

Até o início de 2025, o exportador brasileiro já lidava com desafios, porém mapeados, como o mecanismo de cotas do aço (legado da Seção 232, que pune excedentes com pesadas tarifas) e os programas de subsídios à produção interna americana, que encarecem indiretamente o produto estrangeiro. No entanto, o cenário sofreu um choque com a imposição da tarifa global de 10% sobre todos os parceiros comerciais dos EUA. Com essa medida, ancorada na Seção 122 do Trade Act, a taxa média efetiva de importação do país saltou para 12,1% em julho de 2026 — o nível mais alto registrado em mais de um século.

Há poucas semanas, a Representação Comercial dos EUA (USTR) determinou a aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre diversas importações brasileiras. A Casa Branca justificou a medida como uma retaliação a supostas práticas comerciais desleais do Brasil — citando desde o tratamento tarifário do etanol americano até políticas ambientais e barreiras digitais.

Embora a China figure como o maior parceiro de peso em volume financeiro global e o Brasil avança no mapeamento de novas rotas, os Estados Unidos ocupam uma posição estratégica para o país: são o principal destino das exportações brasileiras de alto valor agregado. Mais da metade do que embarcamos para o mercado americano é composto por bens manufaturados, abrangendo desde máquinas, motores e equipamentos aeronáuticos até calçados e produtos de madeira. Trata-se da fatia da nossa economia que gera empregos qualificados e movimenta cadeias produtivas complexas.

Diante disso, a inteligência logística assume o papel de escudo financeiro. Quando as tarifas aduaneiras e os custos tributários no destino são rígidos, o principal fator de preservação de margem reside na otimização da composição do preço final (CIF). É na engenharia do transporte internacional, na eliminação de redundâncias operacionais e na velocidade dos trâmites burocráticos que o exportador consegue recuperar os pontos percentuais de rentabilidade capturados pelas barreiras alfandegárias.

Na Cronos Logistics, vivenciamos diariamente essa transformação. A complexidade do comércio bilateral exige que a atuação logística vá muito além de movimentar contêineres. Ter presença física, por meio de escritórios e agentes próprios em solo norte-americano, tornou-se um pré-requisito. Essa estrutura in loco possibilita realizar uma inteligência aduaneira ativa, para dialogar com os órgãos fiscalizadores dos EUA, antecipar exigências regulatórias, revisar classificações tarifárias e realizar o desembaraço prévio das cargas antes mesmo de sua atracação nos terminais.

Na outra ponta, o suporte à indústria nacional demanda capilaridade. A capacidade de articular operações integradas nos principais complexos portuários do país somada à presença contínua nos aeroportos de carga são diferenciais. Com flexibilidade multimodal, agilidade e consolidação estratégica de cargas, contornamos desafios operacionais e oferecemos rotas alternativas que reduzem o tempo de trânsito e os custos acessórios.

Esperar por acordos bilaterais de isenção tarifária não é uma estratégia sustentável de negócios. O ganho real de competitividade do Brasil depende de decisões que estão sob o nosso controle. A sofisticação da cadeia de suprimentos, ancorada em parceiros logísticos especializados e com certificações e governança internacional, é o caminho mais sólido para manter o produto nacional competitivo além-fronteiras.

(*) Mateus Bernardes é CEO da Cronos Logistics, um dos maiores agentes de carga do país, especializado em soluções logísticas internacionais de alta complexidade, com capilaridade nos principais portos e aeroportos do Brasil e estrutura operacional própria nos Estados Unidos._

 

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