Luciano Furtado C. Francisco (*)
O conflito entre Estados Unidos e Irã tem resultado em grandes restrições na passagem de petróleo pelo Estreito de Ormuz. Esse ambiente de segurança instável no Golfo Pérsico já aparece no preço do barril e, por tabela, no custo de mover mercadorias em navios, aviões e caminhões. Em operações globais, o efeito raramente fica contido no setor de energia. Acaba se espalhando pelo frete, pelo seguro, pelo prazo e, no fim das contas, no preço ao consumidor.
Desde quando o conflito entrou em uma fase mais aguda, as cotações internacionais do petróleo avançaram de forma brusca e analistas passaram a revisar projeções. Uma pesquisa da Reuters elevou a estimativa média do barril de petróleo do tipo Brent para 2026, e o próprio noticiário aponta uma alta de cerca de 60% nos benchmarks desde o início da guerra.
Para a logística, o petróleo é o primeiro empurrão, mas não é o único. O segundo é o seguro, que costuma ser invisível até ficar caro demais para ser ignorado. Com ataques e ameaças no entorno, o seguro de risco de guerra encareceu de maneira expressiva. A Euronews descreve um salto de prêmios que antes eram medidos em centésimos do valor do navio para patamares muito superiores, o que muda a conta de cada viagem e torna comum a decisão de adiar travessias, redesenhar rotas ou suspender escalas.
O terceiro empurrão é operacional. O Irã passou a formalizar um controle de passagem com exigências adicionais e, em alguns casos, cobrança para trânsito, o que reduz a previsibilidade e amplia o tempo de decisão de armadores e embarcadores.
Resultado que aparece nas redes de transporte como um todo. No marítimo, companhias têm sinalizado disrupção de rotas e custos mais altos, com reflexo em prazos e capacidade. A guerra vem transformando as redes de navegação, forçando desvios e ajustes que pressionam a eficiência do setor. No aéreo, o choque é ainda mais imediato, porque o combustível é um componente enorme do custo. O querosene de aviação praticamente dobrou desde o início do conflito, com reação na forma de sobretaxas de combustível e revisão de planos de capacidade.
Há ainda um detalhe pouco glamouroso, mas decisivo, que é o efeito do petróleo sobre insumos e embalagens. O Estreito de Ormuz não é corredor apenas de petróleo, mas também de produtos e matérias-primas ligadas à indústria petroquímica, e o encarecimento combinado de energia e transporte costuma impactar em plásticos, filmes, resinas e uma série de itens de apoio que a indústria consome o tempo todo.
A questão essencial, para quem opera logística e comércio online, é que crises no Golfo raramente são apenas sobre petróleo. Elas são sobre risco, e risco é preço. Quando o risco entra na tarifa do navio, no seguro, no combustível do avião e no caixa do varejista, o resultado é uma cadeia menos fluida e mais cara. E, enquanto o Estreito de Ormuz permanecer nesse regime de tensão, a logística global vai continuar trabalhando com um novo patamar de incerteza.
Vamos torcer para que o conflito logo termine.
(*) Luciano Furtado C. Francisco é analista de sistemas, administrador e especialista em plataformas de e-commerce. É professor do Centro Universitário Internacional – Uninter, onde é tutor no curso de Gestão do E-Commerce e Sistemas Logísticos e no curso de Logística.







