Allan Gallo (*)
A relação entre China e Rússia costuma ser tratada como uma aliança improvisada contra o Ocidente, e, embora essa seja uma leitura confortável, ela é insuficiente. O que existe entre Pequim e Moscou é uma convergência estratégica em que a Rússia funciona, cada vez mais, como retaguarda continental, diplomática e energética da ascensão chinesa.
Fato é que, em 2026, a China não precisa da Rússia para se tornar uma potência, mas continua precisando de um ambiente internacional menos hostil para sustentar sua ascensão. É nesse ponto que Moscou se torna útil, oferecendo a Pequim profundidade geopolítica, apoio em temas sensíveis, como Taiwan, e coordenação regional na Ásia Central. Para um país cercado por disputas marítimas no Indo-Pacífico, não ter a Rússia como inimiga já representa um ativo estratégico relevante.
Outro ponto importante é que Moscou aceita a visão chinesa de soberania, na qual estabilidade interna e não intervenção externa prevalecem sobre agendas ocidentais de democratização e direitos humanos. Para Pequim, isso tem enorme valor estratégico, sobretudo porque a Rússia oferece respaldo político e uma linguagem comum baseada em ordem, estabilidade e resistência à hegemonia americana.
Existe também uma complementaridade econômica bastante interessante, pois a China compra energia, matérias-primas e segurança de abastecimento da Rússia. O Petróleo, o gás e o carvão russos reduzem significativamente a vulnerabilidade chinesa diante de eventuais crises marítimas, sobretudo porque, em um cenário de tensão prolongada no Pacífico, possuir um grande fornecedor continental de energia deixa de ser mera questão logística para se tornar elemento central de segurança estratégica.
Do lado russo, a dependência cresce de maneira evidente, já que, isolada do Ocidente e pressionada por sanções, Moscou passou a precisar de Pequim muito mais do que Pequim necessita de Moscou. A Rússia ainda preserva peso diplomático e recursos naturais, mas a China concentra escala econômica, indústria e horizonte estratégico de longo prazo.
Por isso, chamar essa relação simplesmente de “aliança antiamericana” é empobrecer o fenômeno. A Rússia ajuda a China a ampliar seu alcance global sem que Pequim precise assumir todos os custos da confrontação direta. Moscou tensiona, bloqueia, provoca e desgasta. Pequim observa, negocia, compra e avança. É uma divisão de tarefas bastante conveniente.
O erro do Ocidente é imaginar que essa aproximação seja passageira ou mero produto da guerra na Ucrânia, quando, na realidade, ela nasce de interesses estruturais bastante claros, já que a China vê na Rússia uma peça útil para acelerar a transição para uma ordem menos centrada nos Estados Unidos, enquanto Moscou enxerga em Pequim uma forma de evitar a própria irrelevância.
(*) Allan Gallo, professor de Economia e Direito na Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM) e pesquisador do Centro Mackenzie de Liberdade Econômica (MackLiber)







