Há muito o Mercosul veio para ficar!

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Leo Braga (*)

Em um sistema internacional marcado por tensões geoeconômicas e políticas protecionistas, a coesão regional tornou-se o principal instrumento de soberania e autonomia estratégica nacional. Os países da União Europeia e do Mercosul não estão alheios a isso. Outrora com sua valorização um tanto deslocada dos interesses brasileiros, a questão da relevância estratégica do Mercosul no cenário contemporâneo reafirma-se através de marcos históricos alcançados no primeiro trimestre de 2026.

O bloco sul-americano consolidou-se como um dos pilares centrais da política externa brasileira, funcionando simultaneamente como um mercado preferencial para bens manufaturados, uma plataforma de negociação coletiva e um laboratório para a integração energética. O papel do Mercosul foi fundamental para sustentar a indústria de transformação, que registrou montante recorde de US$ 189 bilhões em exportações globais (alta de 3,8% em valor).

Especificamente dentro do bloco, as exportações para a Argentina cresceram 31,4% em 2025, impulsionadas fortemente pelo setor automotivo, demonstrando que a integração regional atua como um motor de crescimento para produtos de alto valor agregado. Então, desde já, podemos dizer com segurança: “o Mercosul importa!”.

Em relação à União Europeia, o acordo cria a maior zona de livre comércio do mundo, integrando 720 milhões de pessoas e um PIB combinado de US$ 22,4 trilhões. Para o Brasil, o acesso preferencial saltará de 8% para 36% do comércio global de bens. No primeiro ano de vigência, 39% dos produtos do agronegócio exportados para a UE já terão tarifa zero.

O acordo Mercosul-União Europeia prevê a eliminação de tarifas para 91% dos bens europeus pelo Mercosul (em até 15 anos) e 95% dos bens do Mercosul pela UE (em até 12 anos). Setores sensíveis como o automotivo terão prazos de adaptação de até 15 anos, podendo chegar a 30 anos para novas tecnologias, preservando a capacidade de industrialização nacional.

Para mitigar riscos, o Brasil regulamentou salvaguardas que permitem a suspensão temporária de preferências caso as importações causem prejuízo grave à indústria doméstica ou ao setor agrícola, com gatilhos automáticos baseados em volume e preço, o que também vale para o lado europeu em produtos agrícolas, especialmente.

O início de 2026 marcou a conclusão de um ciclo diplomático de 26 anos na relação Mercosul-União Europeia. Após a assinatura em Assunção em 17 de janeiro de 2026, o processo de ratificação do acordo avançou com velocidade sem precedentes, especialmente, no Mercosul:
1. Aprovação Legislativa: no Brasil, o Senado Federal aprovou por unanimidade o acordo em 4 de março de 2026, sendo o terceiro país do bloco a completar esta etapa, após Uruguai e Argentina.
2. Promulgação: A sessão solene para a promulgação brasileira do decreto legislativo (PDL 41/2026) foi realizada em 17 de março de 2026.
3. Vigência Provisória: A expectativa do governo é que a aplicação provisória e os primeiros cortes tarifários comecem em 1º de maio de 2026.

Haverá impactos muito positivos na queda dos preços dos produtos vinda da União Europeia como vinhos, queijos, chocolates, ou seja, itens de consumo ligeiro. Haverá também queda gradativa em bens de maior valor agregado, como automóveis, cujas tarifas de importação cairão a zero em intervalos de 7 e 15 anos. Para automóveis elétricos e híbridos, a tarifa será zerada após apenas 18 anos. Isso significa ampliação do mercado consumidor de carros no Mercosul e no Brasil, o maior mercado do bloco.

Outro ponto a dar destaque é que o Mercosul de 2026 é um bloco em expansão. A incorporação da Bolívia como membro pleno adiciona um mercado de 11 milhões de consumidores e posiciona o bloco como um player estratégico no mercado global de lítio, essencial para a transição energética.

Na área de energia, embora a Bolívia continue sendo um fornecedor vital, o Brasil tem investido em infraestrutura própria de gás natural e na conexão com a jazida de Vaca Muerta (Argentina) para reduzir vulnerabilidades externas e baixar o custo industrial.

Ao olhar para além da América do Sul e da União Europeia, outros avanços na agenda externa do Mercosul incluem o acordo de livre comércio com Singapura, que já entrou em vigor para Paraguai (fevereiro/2026) e Uruguai (março/2026), ampliando o acesso ao mercado asiático. Resta o Brasil ratificar aqui no Congresso Nacional para também se beneficiar do acordo.

Outros dois acordos com o Mercosul estão em andamento. Com os Emirados Árabes Unidos as negociações estavam em estágio avançado com expectativa de conclusão no primeiro semestre de 2026. Contudo será necessário aguardar os desdobramentos e impactos do conflito no Oriente Médio.

E pela primeira vez, o governo brasileiro sinalizou abertura para negociar um acordo comercial parcial com a China, visando equilibrar a relação e responder às mudanças no comércio global. A China já é a maior parceira comercial do Brasil.

Como se não bastasse a relevância do Mercosul por si só, o papel do bloco tornou-se ainda mais importante diante da instabilidade nas relações com os Estados Unidos. Em 2025, o “tarifaço” imposto pelo governo norte-americano causou uma queda de 6,6% nas exportações brasileiras para os EUA, perda que foi compensada pelo crescimento das vendas para a China (+6%) e para o próprio Mercosul.

Embora a Suprema Corte dos EUA tenha derrubado parte dessas tarifas em fevereiro de 2026, a incerteza gerada reforçou a necessidade de o Brasil utilizar o bloco regional como um “colchão de proteção” contra guerras comerciais externas.

E o cenário de março de 2026 mostra que o Mercosul superou a fase de estagnação. Com a ratificação do acordo com a União Europeia, a entrada da Bolívia, o bloco deixou de ser apenas um fórum político para se tornar uma plataforma de competitividade industrial e logística.

Para o Brasil, o Mercosul é indispensável não apenas para garantir mercados de exportação, mas para assegurar uma inserção qualificada e soberana em uma ordem mundial cada vez mais fragmentada.

E isso é muito diferente da posição do Brasil no BRICS, por exemplo, que acaba sendo uma plataforma de reivindicação de transformação da ordem global em linhas pouco prováveis, com alinhamentos ou inusitados ou pouco instigantes na “revisão” desta mesma ordem internacional. Bem, isso fica para outro papo.

O que importa é que há muito que o Mercosul veio para ficar! Avante, Mercosul!

(*) Leo Braga, docente do curso de Relações Internacionais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio (FPM Rio)

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