Para Marcelo Cabral, gestor de investimentos e fundador da Stratton Capital, em Nova York, medida tem relação com a disputa geopolítica entre Estados Unidos e China. Segundo o especialista, o anúncio às vésperas das eleições também não é coincidência
Da Redação
Basília – A nova rodada de tarifas impostas pelos Estados Unidos ao Brasil tem, na avaliação de Marcelo Cabral, gestor de investimentos e fundador da Stratton Capital, sediada em Nova York, uma motivação muito mais política e geopolítica do que econômica. Para ele, os investidores americanos compreendem que as medidas tarifárias são utilizadas como instrumento de pressão e estão relacionadas à crescente aproximação econômica do Brasil com a China.
“Os investidores americanos sabem perfeitamente que as tarifas que estão sendo impostas sobre o Brasil são um instrumento de pressão política que tem pouco a ver com o racional econômico, até porque os Estados Unidos têm um superavit comercial significativo com o Brasil“, afirma o gestor.
Segundo Cabral, embora a narrativa oficial dos Estados Unidos apresente justificativas técnicas para as tarifas, o movimento está inserido em um contexto mais amplo de disputa pela influência econômica e geopolítica global. “Não há dúvidas que é evidente que as tarifas são parte da resposta americana à crescente integração econômica do Brasil com a China e à retórica do governo brasileiro sobre a necessidade de reduzir o papel do dólar no comércio internacional”.
Alerta contra alinhamento com a China
Para o fundador da Stratton Capital, a estratégia do governo de Donald Trump também tem como objetivo enviar um sinal a outros países sobre os possíveis custos econômicos de um alinhamento mais próximo com a China. “A visão de Trump é clara. A China e seus países alinhados, dentre os quais, na perspectiva de Washington, figura o Brasil, representam uma ameaça à posição dos EUA com potência econômica hegemônica global e uma possível ameaça à segurança nacional americana”, opina o gestor.
Nesse cenário, Cabral avalia que uma eventual reação brasileira, como a ativação da Lei de Reciprocidade e a possibilidade de suspensão de obrigações relacionadas à propriedade intelectual, ainda não está totalmente incorporada aos preços dos ativos brasileiros negociados no exterior.
“Na minha leitura, é uma questão de tempo. Ao longo do último ano, houve mudanças na posição dos EUA e aconteceram idas e vindas entre os dois países. À medida que a situação for se delineando de forma mais clara, o aumento do risco-Brasil será refletido no mercado,”, diz.
Apesar dos potenciais efeitos das tarifas sobre setores americanos que dependem de produtos brasileiros, Cabral avalia que o custo político doméstico da medida tende a ser limitado. “O principal custo político interno vem do impacto das tarifas na inflação americana. Para minimizar esse impacto, os Estados Unidos isentaram estrategicamente produtos cuja substituição por produção doméstica é mais difícil, como café, carne bovina, petróleo bruto e componentes aeroespaciais (Embraer). Neste cenário, o custo político deve ser pequeno”, comenta.
O gestor também chama atenção para a diferença entre os fluxos comerciais dos Estados Unidos com Brasil e China. Segundo ele, os americanos importam cerca de US$ 290 bilhões da China, contra aproximadamente US$ 45 bilhões do Brasil. Mesmo diante de uma relação comercial muito maior com os chineses, Trump elevou a tarifa média dos produtos chineses de 10,9% para 29,6%.
Impacto nas eleições presidenciais brasileiras
Outro ponto é o momento escolhido para o anúncio das tarifas, realizado às vésperas do ciclo eleitoral brasileiro de 2026. Para Cabral, o calendário não é uma coincidência e reforça a percepção de que a medida também funciona como instrumento de pressão política sobre o governo brasileiro: “O timing expõe a lógica estrutural por trás da medida. A tarifa foi anunciada em 15 de julho com prazo limite para a decisão a menos de três meses do primeiro turno, o que reforça a interpretação de que as tarifas estão sendo usadas como alavanca de pressão em um momento de vulnerabilidade eleitoral do governo brasileiro”.
Diante desse cenário, uma eventual intensificação da aproximação brasileira com países asiáticos não necessariamente representaria um aumento imediato do risco político para os investidores americanos. Cabral ressalta que países como Japão, Coreia do Sul e Taiwan são aliados dos Estados Unidos. Para ele, o principal fator de atenção está relacionado especificamente à possibilidade de aumento da influência econômica e política da China sobre o Brasil.
Para o gestor, portanto, o principal impacto do tarifaço sobre a percepção dos investidores globais não está necessariamente no efeito direto sobre o comércio bilateral. “O risco mais relevante não é o impacto comercial direto das tarifas, mas o sinal de que o risco-país brasileiro pode incorporar, de forma permanente, uma







