Em artigo publicado no CNN Brasil, o presidente da CNI, Ricardo Alban, defende uma política comercial firme para fortalecer a competitividade da indústria nacional
Ricardo Alban (*) (**)
O Brasil precisa decidir se quer ser uma potência industrial ou apenas um grande mercado consumidor para a produção de outros países, limitando-se continuamente a ser um exportador de comodities. A pergunta se tornou urgente diante da invasão de produtos importados que chega ao nosso mercado, em muitos casos, diretamente da China e, cada vez mais, por meio de outras nações que funcionam como portas de entrada para mercadorias de diversos países.
Não somos contra as importações industriais. O que defendemos é a inserção do Brasil no comércio internacional de produtos manufaturados de forma positiva para o país e para os brasileiros. Por isso, não podemos aceitar que o imenso ambiente econômico local se torne o destino preferencial de itens que encontram barreiras em outros mercados e chegam aqui por rotas alternativas.
Quando uma economia de enorme escala e capacidade produtiva como a chinesa encontra mercados fechados por tarifas, medidas antidumping, subsídios ou outras barreiras, ela procura novos destinos. O Brasil, pelo tamanho de seu mercado, pela abertura relativa de sua economia e pela competitividade ainda insuficiente de grande parte de nossa indústria, tem sido um desses destinos.
O nosso país bateu recordes de exportação nos últimos anos, mas nossa indústria perde terreno no mundo e dentro de casa. Hoje temos o maior déficit comercial da indústria de transformação desde 2000, participação inferior a 1% nas exportações mundiais de manufaturados e uma presença recorde de bens importados no consumo nacional. Estamos exportando mais volume e menos complexidade.
Não podemos olhar esses números como se fossem fenômenos independentes. A China é hoje a principal origem das importações brasileiras, e basicamente de baixo valor agregado. E a própria Confederação Nacional da Indústria (CNI) já mostrou que o Brasil importa cerca de US$ 5 bilhões por ano em produtos chineses que são alvo de medidas contra subsídios em outros mercados. É preciso, portanto, olhar não apenas quanto estamos importando, mas o que, de onde, a que preço e, sobretudo, por que determinados fluxos estão mudando de direção.
O aumento das barreiras comerciais em grandes economias está criando um mundo de fluxos comerciais cada vez mais desviados. A CNI já identificou sinais desse movimento no Sudeste Asiático. Em 2025, o volume importado pelo Brasil da Indonésia chegou a crescer 72,8% em maio, na comparação anual; no caso da Tailândia, a alta foi de 31,4%.
Não podemos esperar que o problema apareça nas estatísticas depois que fábricas brasileiras tiverem fechado. A defesa comercial será mais eficiente se for preventiva, não apenas reativa. E mais ainda, a defesa comercial precisa ser feita com o total entendimento das cadeias produtivas. O Brasil precisa monitorar sistematicamente os fluxos de importação, cruzar dados de origem, preços e volumes, identificar mudanças abruptas nas rotas comerciais e investigar rapidamente indícios de triangulação ou de desvio de comércio.
Não se trata de presumir ilegalidade. Trata-se de investigar quando houver evidências. É para isso que existe a defesa comercial. Sendo de capital importância a análise de impacto sobre toda a cadeia produtiva, em toda e qualquer ação de defesa comercial. A CNI já tem se colocado inteiramente à disposição do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) para colaborar ativamente de forma construtiva. E, para tanto, já demos andamento à assinatura de um ACT de colaboração.
Em 2024, foram abertas 375 investigações antidumping e 64 investigações sobre subsídios, ambos recordes históricos. As principais economias estão aperfeiçoando seus instrumentos pois compreenderam que política comercial deixou de ser apenas uma questão tarifária. Tornou-se um assunto de segurança econômica. O Brasil não pode ser ingênuo. Também precisamos ampliar o olhar sobre os subsídios. O antidumping combate determinadas práticas de preços, mas medidas compensatórias enfrentam outra realidade: o apoio concedido por governos estrangeiros às empresas e aos produtos que chegam ao nosso mercado.
A CNI já mostrou que o Brasil utiliza muito menos medidas compensatórias contra produtos dos diversos países, inclusive chineses, do que outras grandes economias. Em outras palavras, temos instrumentos que ainda podem ser mais bem utilizados para enfrentar distorções provocadas por subsídios.
Defender a indústria brasileira não significa fechá-la para o mundo, nem muito menos tutelar e/ou incentivar a ineficiência. Erguer apenas barreiras não é a solução. A indústria brasileira precisa ser mais competitiva, investir mais em inovação, em tecnologia e em produtividade, reduzir o famigerado Custo Brasil e conquistar mercados. A defesa comercial e a internacionalização devem ser complementares.
Enquanto a defesa comercial reduz vulnerabilidades, a internacionalização amplia oportunidades. Ela atrai investimentos, incorpora tecnologia, aumenta produtividade e conecta empresas brasileiras às cadeias globais de produção e inovação. Por isso, a resposta brasileira precisa ter duas vias. Ela deve dar equidade e justiça competitiva a concorrência e abrir mercados. Precisamos implementar os acordos comerciais já negociados, buscar novas parcerias estratégicas e criar condições para que empresas brasileiras de todos os portes exportem mais e participem das cadeias internacionais.
Ser parceiro da China é importante, bem como dos Estados Unidos, da União Europeia e demais países. Mas, não significa aceitar que o Brasil seja o mercado de compensação para o excesso de capacidade industrial e/ou de interesses geopolíticos específicos. E, também não significa permitir que terceiros países sejam utilizados como atalhos para contornar medidas comerciais legítimas.
Estamos diante de uma mudança estrutural no comércio mundial. Excesso de capacidade produtiva, reorganização das cadeias globais, tensões geopolíticas e multiplicação de barreiras transformaram a política comercial em instrumento de segurança econômica. Por isso, não basta responder a cada nova onda de importações depois que ela chega. Precisamos de uma política de Estado. É nesse sentido que a CNI propõe uma sétima missão para a Nova Indústria Brasil, dedicada à internacionalização da indústria, com metas, financiamento e coordenação entre comércio, investimento e inovação. E, principalmente, atuação firme e planejada do combate efetivo ao “Custo Brasil”, precificado em cerca de R$ 1,7 trilhão/ ano.
O Brasil não pode escolher entre estar aberto ao mundo e proteger sua indústria. Precisamos fazer as duas coisas. Uma indústria forte não é aquela que teme a competição internacional. É aquela que consegue competir internacionalmente porque encontra, em seu próprio país, condições competitivas para produzir, investir, inovar e crescer.
(*) Ricardo Alban é empresário e presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI).
(**) O artigo foi publicado na CNN Brasil, no dia 2 de setembro de 2026.







