Novas rotas do comércio global já mudam o custo das empresas brasileiras, dizem especialistas

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Tarifas e mudanças logísticas obrigam importadores e exportadores a rever frete câmbio prazos e capital de giro antes de trocar fornecedores ou destinos 

Da Redação (*)

Brasília – As novas tarifas dos Estados Unidos alcançam 23,1% das exportações brasileiras destinadas ao país, segundo levantamento do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. No primeiro semestre de 2026, os embarques nacionais para o mercado americano somaram US$17,4 bilhões, queda de 13% na comparação anual.

Para Fabiane Oliveira, formada em Administração de Empresas com ênfase em Comércio Exterior, é fundadora do Saygo Group especializada em assessoria e gestão de operações de importação e exportação, as novas rotas do comércio global estão levando companhias brasileiras a rever não apenas fornecedores e clientes, mas toda a composição financeira de uma operação. “Trocar um país de origem ou um destino de venda não significa apenas negociar com outra empresa. Muda frete, prazo, seguro, documentação, regras locais, condições de pagamento e, muitas vezes, a moeda da operação. A decisão precisa considerar quanto essa nova rota realmente custa até o produto chegar ao destino”, afirma.

O impacto ganha peso diante do tamanho das operações internacionais brasileiras. Em julho, o Brasil movimentou US$61,17 bilhões na corrente de comércio, com US$34,12 bilhões em exportações e US$27,05 bilhões em importações, segundo dados oficiais do MDIC. O volume cresceu 6,8% em relação ao mesmo mês de 2025.

Novas rotas do comércio global mexem com a estrutura da operação

A mudança ocorre enquanto empresas tentam responder às novas barreiras comerciais. As medidas anunciadas pelos Estados Unidos em julho estabeleceram sobretaxas adicionais de 25% e de 12,5% sobre parcelas das importações brasileiras. Em determinados produtos atingidos pelas duas medidas, a cobrança adicional chega a 37,5%, segundo o MDIC. Buscar outra origem ou destino, porém, pode gerar custos que não aparecem na primeira cotação.

Ronaldo Felix, executivo com mais de 21 anos de experiência em operações, logística, distribuição, prevenção de perdas e dados, é sócio e diretor de Operações da Saygo Group. Segundo ele, uma alteração comercial pode exigir a revisão do porto utilizado, do modal de transporte, dos estoques e dos prazos assumidos com clientes. “Um fornecedor pode oferecer um preço menor e, ainda assim, gerar uma operação mais cara. Se a mercadoria leva mais tempo para chegar, exige outro porto, aumenta o período de armazenagem ou faz a empresa carregar mais estoque, esse custo aparece depois. É por isso que a análise precisa começar antes da troca de rota”, afirma.

O alerta encontra respaldo no relatório mais recente sobre transporte marítimo da UNCTAD, órgão das Nações Unidas voltado ao comércio e ao desenvolvimento. A entidade afirma que desvios provocados por tensões geopolíticas têm alongado viagens marítimas, elevado custos operacionais e aumentando atrasos. Segundo o documento, as tarifas de frete permaneceram elevadas e voláteis ao longo de 2024 e 2025, pressionadas por conflitos, mudanças na política comercial e desequilíbrios entre oferta e demanda.

Para o diretor de operações, o prazo também precisa entrar na conta financeira da operação. “Uma rota mais longa não afeta apenas a logística. Ela pode exigir maior estoque de segurança, antecipação de compras e mais capital imobilizado até a mercadoria estar disponível para venda ou produção. Quando esses fatores não entram na análise inicial, a economia prevista pode desaparecer”, ressalta.

O custo da mudança também chega à tesouraria

A reorganização das cadeias internacionais também pode alterar a forma como uma empresa administra o caixa. Um importador que troca fornecedores dos Estados Unidos por parceiros europeus ou asiáticos, por exemplo, pode passar a lidar com diferentes moedas, prazos e condições financeiras.

Murillo Oliveira, Head of Treasury da Saygo Group, afirma que a decisão comercial precisa chegar à tesouraria antes da contratação. “As novas rotas do comércio global também criam novas exposições financeiras. Quando a origem, o destino ou a moeda de uma operação muda, a empresa precisa recalcular fluxo de caixa, custo financeiro, precificação e necessidade de proteção cambial. Caso contrário, uma economia obtida na negociação comercial pode desaparecer na etapa financeira”, afirma.

Essa análise se torna ainda mais relevante quando a mudança aumenta o tempo entre o pedido, o pagamento ao fornecedor e a chegada da mercadoria. Quanto maior o ciclo da operação, maior pode ser a necessidade de capital de giro para sustentar compras, estoques e compromissos financeiros antes da geração de receita.

Para Murillo, compras, comércio exterior e tesouraria precisam trabalhar sobre a mesma projeção. “O câmbio não deve ser analisado apenas no dia do pagamento. A exposição nasce quando a empresa assume o compromisso internacional. Quanto mais cedo essa informação entra no planejamento financeiro, maior a capacidade de proteger margem e preservar previsibilidade”, ressalta.

Da planilha fragmentada para uma visão única do custo

A multiplicação de fornecedores, moedas, documentos e rotas também aumenta a dificuldade de saber quanto uma importação efetivamente custou. Uma alteração aparentemente isolada pode repercutir sobre transporte, armazenagem, tributos, fechamento de câmbio e capital imobilizado.

É justamente nessa integração que a Saygo vem posicionando o Vision, plataforma voltada à gestão de importações que reúne informações operacionais, financeiras e documentais. A proposta é permitir que empresas acompanhem etapas da operação e identifiquem como alterações de rota afetam prazo, custo e conformidade, sem tratar logística e finanças como processos separados.

Para os especialistas da Saygo, a tendência é que as decisões sobre fornecedores deixem de ser avaliadas apenas pelo valor negociado na origem. O preço de compra continua sendo importante, mas representa apenas uma parte da conta. Segundo eles, é necessário conhecer o custo completo da operação e entender os impactos na margem ao mudar de país, prazo ou condição de pagamento. Essa visão permite alterar uma rota sem criar um problema maior dentro da própria empresa.

(*) Com informações da Saygo

 

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