Frederico Lamego (*) e Mathias Mangels (**)
O oceano é um pedaço da economia brasileira que não é utilizado de forma sustentável. Petróleo e gás offshore, portos, pesca e aquicultura, turismo costeiro, biotecnologia marinha, eólica offshore, hidrogênio verde: é isso que a economia azul reúne. No Brasil, ela já responde por algo entre 2,9% e 6,5% do PIB, segundo a FEA-USP e a Nature, além de gerar cerca de 4,7 milhões de empregos. A Marinha do Brasil calcula o valor agregado da economia do mar em R$ 1,74 trilhão, 19% do PIB.
Qualquer que seja a métrica, o Brasil fica com uma fatia pequena de mercado que a OCDE estima em US$ 1,5 trilhão por ano no mundo, com projeção de chegar a US$ 3 trilhões até 2030. Com um dos maiores litorais e zonas econômicas exclusivas do planeta, o Brasil tem no oceano uma vantagem comparativa pouco explorada. A partir de regulação previsível e capital de longo prazo, pode virar motor de crescimento e de atração de investimentos.
Esse potencial virou pauta política global em 2025. A 3ª Conferência dos Oceanos da ONU – UNOC3, em Nice, reuniu mais de 170 países em torno de declaração por “ação urgente” em favor do oceano. Meses depois, a COP30, em Belém, dedicou dias inteiros de sua “Zona Azul” a planos globais para o mar. O oceano deixou de ser pauta ambiental de nicho e virou vetor de capital, tecnologia e geopolítica. Essa mudança já aparece em iniciativas estaduais.
Em São Paulo, o Porto de Santos teve, em 2025, sua maior movimentação histórica, âncora de ciclo de mais de R$ 12,6 bilhões em obras portuárias. Na Bahia, a Assembleia aprovou lei de incentivo à “Economia do Mar.” O Porto de Salvador sediou um Summit de Economia Azul com formação de lideranças locais. No Ceará, o polo de hidrogênio verde do Pecém projeta cerca de US$ 10 bilhões em investimentos. Rio de Janeiro reposiciona sua tradição naval e offshore sob a chave da economia azul. E o Maranhão avança na mesma trilha. A pauta não é discurso federal isolado: é movimento distribuído pelo litoral brasileiro.
Transformar esse potencial em capital exige um pipeline de projetos qualificados — portos verdes, aquicultura de baixo impacto, eólica offshore, biotecnologia marinha — elegíveis a instrumentos ainda escassos diante da demanda. Nesse contexto, já existem mecanismos de financiamento sustentável. Um dos exemplos são as blue bonds, dívida carimbada para preservação hídrica e resiliência costeira, que a Sabesp já usa para acelerar o saneamento.
O BNDES lançou o BNDES Azul, com carteira de US$ 70 milhões para manguezais e descarbonização naval; o Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe – CAF dobrou sua meta para US$ 2,5 bilhões até 2030 na região e já aprovou US$ 150 milhões para projeto no Ceará. Ademais, há mecanismos de blended finance em curso como o Global Fund for Coral Reefs e o Meloy Fund que combinam capital concessional com investimento privado para reduzir risco. A própria UNOC3 propôs mobilizar US$ 100 bilhões em novo financiamento oceânico já que o tema dos oceanos recebe menos de 1% dos recursos globais de finança climática. BNDES e CAF já sinalizam apetite; falta um funil de projetos maduros o suficiente para captar esse capital.
E o ano de 2027 oferece uma janela de oportunidade para o Brasil. Trata-se da realização da Conferência da Década do Oceano da ONU que será realizada no mês de abril no Rio de Janeiro O evento mobilizará a comunidade dos oceanos e parceiros para fazerem um balanço dos progressos e discutirem novas iniciativas de impacto. A partir do estabelecimento de novos mecanismos de financiamento sustentáveis, de um lado, e de portfólio de projetos, o Brasil pode assumir papel de protagonismo nessa agenda. A COP32 também prevê sua própria agenda de economia azul em 2027. O oceano brasileiro já é ativo estratégico reconhecido. Falta transformar esse reconhecimento em atração de investimentos sustentáveis.
(*) Frederico Lamego é Assessor Especial da Presidência da CNI e Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília.
(**) Mathias Mangels é s é engenheiro, presidente da RethinkingWorks e especialista em transformação estratégica, inovação e Economia Azul 5.0. Atua na concepção e liderança de programas de desenvolvimento sustentável, capacitação de líderes e criação de ecossistemas regionais de inovação, sendo co-gestor das iniciativas Blue Bahia e Blue Ceará e um dos articuladores do Blue Santos. É também coordenador do Programa Líderes Azuis e coautor do livro Economia Azul e Cidades: Uma Introdução, publicado pelo Insper.







