Foto: OMC/Divulgação

Comércio mundial desafia guerras e tarifas e mantém ritmo forte em 2026 mas riscos crescem, diz OMC

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Mesmo sob pressão de conflitos, tarifas e incerteza geopolítica, comércio de mercadorias segue acima da tendência; serviços também avançam, enquanto inteligência artificial muda o mapa das exportações

Da Redação (*)

Brasília – O comércio internacional entrou em 2026 em terreno turbulento — mas não parou de crescer. Guerras, tarifas, tensões geopolíticas e interrupções em importantes rotas marítimas não foram suficientes, até agora, para tirar o comércio mundial de sua trajetória de expansão.

O diagnóstico aparece no novo Relatório Anual da Organização Mundial do Comércio (OMC), divulgado em 9 de setembro. O documento mostra que o comércio mundial de mercadorias cresceu 4,6% em volume em 2025, enquanto o comércio de serviços avançou 5,3%. Em valor, a corrente global de bens e serviços atingiu o recorde de US$ 34,65 trilhões no ano passado.

E os primeiros dados de 2026 reforçam a percepção de resiliência. No primeiro trimestre, o volume do comércio mundial de mercadorias aumentou 3,2% em relação ao mesmo período de 2025 e 1,9% ante o trimestre anterior. Em dólares, a alta anual chegou a 11O principal combustível dessa expansão tem nome: inteligência artificial.

A corrida mundial por infraestrutura de IA provocou forte aumento na demanda por semicondutores, equipamentos de escritório e telecomunicações, máquinas e outros componentes eletrônicos. No primeiro trimestre, o comércio de bens habilitadores de IA cresceu mais de 40% em valor na comparação anual

Quem domina o comércio mundial

Os rankings internacionais continuam concentrados em um pequeno grupo de gigantes comerciais. Na fotografia mais recente consolidada pela OMC, China e Estados Unidos permanecem no centro do comércio mundial de mercadorias, enquanto as principais economias europeias e asiáticas completam o grupo de líderes.

No primeiro trimestre de 2026, todos os cinco maiores exportadores registraram crescimento nominal das vendas externas. A Coreia do Sul teve o avanço mais expressivo, de 38,4%, seguida por Hong Kong, China (38,3%)Estados Unidos (15,2%)China (14,7%) e União Europeia (9,2%).

No comércio de serviços, o domínio americano é ainda mais evidente. Estados Unidos, Reino Unido, Irlanda, China e Alemanha formam o grupo dos cinco maiores exportadores.

O Brasil ocupa a 23ª posição, com cerca de US$ 51 bilhões em exportações de serviços no dado anual mais recente. A diferença entre os dois rankings revela uma das características mais marcantes da inserção brasileira no comércio mundial: o país tem uma presença muito mais relevante na exportação de bens do que na de serviços.

Brasil ainda é mais forte nas mercadorias

A posição brasileira no comércio internacional continua sustentada principalmente pelo setor de mercadorias. Alimentos, minérios, petróleo, metais e produtos industriais colocam o país entre os grandes fornecedores mundiais, embora ainda distante dos líderes absolutos.

Nos serviços, o espaço para avançar é maior. A participação brasileira permanece pequena diante do tamanho da economia do país e da dimensão de seus principais concorrentes.

Esse contraste ganha importância em um momento em que o comércio mundial passa por uma transformação estrutural. Serviços digitais, tecnologia, computação em nuvem, propriedade intelectual e atividades associadas à economia de dados ganham peso crescente na corrente internacional de comércio.

O comércio resiste — mas os riscos aumentaram

A resiliência, entretanto, não significa que o cenário seja tranquilo.

A OMC prevê uma desaceleração do comércio de mercadorias em 2026. A projeção divulgada em março apontava crescimento de 1,9% no volume mundial, abaixo do desempenho observado em 2025. A guerra no Oriente Médio, a elevação dos custos de energia e as perturbações no transporte pelo Estreito de Ormuz são alguns dos fatores que podem pesar sobre os fluxos internacionais.

Até agora, porém, os indicadores apontam para uma atividade comercial acima da tendência histórica. O Barômetro do Comércio de Mercadorias da OMC, divulgado em 9 de setembro, marcou 102,0 pontos, acima da linha de 100 que representa a tendência de longo prazo. O indicador também mostrou que a demanda por componentes eletrônicos continua sendo um dos principais motores do comércio.

O índice de componentes eletrônicos chegou a 104,9 pontos, enquanto os novos pedidos de exportação atingiram 103,5. A exceção foi o transporte marítimo em contêineres, com 99,6 pontos, ligeiramente abaixo da tendência.

Uma nova geografia do comércio

O que emerge dos números é um comércio mundial menos previsível, mas também mais adaptável. A inteligência artificial está criando novas ondas de demanda por equipamentos e componentes eletrônicos, enquanto conflitos e barreiras comerciais obrigam empresas a reorganizar fornecedores, rotas e mercados.

No caso do Brasil, o desafio é aproveitar esse processo para ir além da tradicional força exportadora de commodities e ampliar a presença em segmentos de maior valor agregado.

O próprio relatório da OMC destaca que cerca de 72% do comércio mundial de bens ainda ocorre sob as condições tarifárias de nação mais favorecida previstas no sistema multilateral. Para a organização, essa rede de regras continua sendo uma espécie de amortecedor em um ambiente internacional marcado por choques sucessivos.

A mensagem da OMC é, portanto, menos de celebração do que de alerta: o comércio global mostrou que consegue sobreviver a guerras, tarifas e crises. Mas, em 2026, a pergunta já não é apenas se o comércio continuará crescendo. É quem conseguirá capturar a próxima onda de crescimento — e em quais produtos e serviços.

 

(*) Com informações da OMC

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