Hugo Ricardo (*)
No mês em que lembramos da importância da ação coletiva para a conservação dos biomas brasileiros, culminando com o Dia Nacional de Proteção às Florestas, celebrado na última sexta-feira, 17, devemos reconhecer, de uma vez por todas, que a estabilidade econômica do país depende diretamente dos serviços ambientais proporcionados por esses ecossistemas. Em um mundo marcado pela emergência climática, proteger as florestas significa proteger a capacidade de o Brasil continuar produzindo, exportando e liderando a agricultura tropical nas próximas décadas.
As florestas regulam o regime de chuvas, armazenam carbono, protegem nascentes, mantêm a fertilidade dos solos, reduzem temperaturas extremas e sustentam uma biodiversidade essencial para a produtividade no campo. Mais do que patrimônio ambiental, constituem parte da infraestrutura produtiva do país.
O Brasil abriga a maior floresta tropical do planeta, concentra uma das maiores biodiversidades do mundo e mantém cerca de dois terços do território cobertos por vegetação nativa. É justamente essa riqueza natural que garante a resiliência dos sistemas produtivos e faz do país uma potência agropecuária e ambiental.
Durante décadas, produção e conservação foram tratadas como objetivos incompatíveis. Hoje, essa visão perdeu espaço. Economias competitivas serão aquelas capazes de seguir produzindo ao mesmo tempo em preservam os ecossistemas dos quais dependem. No entanto, o desafio permanece.
Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), o planeta perdeu cerca de 420 milhões de hectares de florestas desde 1990 e, ainda hoje, aproximadamente 10 milhões de hectares são desmatados anualmente, principalmente em regiões tropicais. No Brasil, dados do MapBiomas mostram que a conversão da vegetação nativa segue concentrada no Cerrado e na Amazônia, evidenciando que o problema continua representando um risco ambiental e econômico.
Ao mesmo tempo, mercados consumidores, investidores e instituições financeiras adotam critérios ambientais cada vez mais rigorosos. A rastreabilidade das cadeias produtivas, a comprovação da origem das matérias-primas e o combate ao desmatamento deixaram de ser diferenciais para se tornarem requisitos de acesso aos mercados internacionais. Transparência e responsabilidade passaram a integrar a lógica da competitividade.
Nesse contexto, combater o desmatamento deixou de ser apenas uma obrigação legal para se tornar uma estratégia de negócios. Empresas que incorporam conservação ambiental, rastreabilidade e produtividade ampliam sua competitividade, fortalecem sua posição perante investidores e aumentam a resiliência de suas operações. O Brasil reúne condições únicas para liderar essa transformação, combinando uma agropecuária altamente produtiva, matriz energética majoritariamente renovável e o maior patrimônio de florestas tropicais do planeta.
O setor empresarial exerce papel decisivo nesse processo. Decisões sobre investimentos, crédito, compras e gestão das cadeias de suprimentos influenciam diretamente a conservação dos ecossistemas. Mais do que atender a exigências regulatórias, as empresas têm a oportunidade de impulsionar soluções como agricultura regenerativa, restauração florestal, bioeconomia, rastreabilidade e soluções baseadas na natureza.
É nesse cenário que se destacam iniciativas de impacto positivo no setor corporativo, como é o caso do Movimento Impacto Biomas, do Pacto Global da ONU – Rede Brasil, que mobiliza empresas para acelerar ações de conservação, restauração e desenvolvimento sustentável nos biomas brasileiros.
Ao promover a colaboração entre empresas, ciência, organizações da sociedade civil e setor público, o Movimento fortalece a incorporação da agenda da natureza às estratégias de negócios e reforça um dos principais aprendizados da agenda climática internacional: enfrentar o desmatamento exige alianças. Nenhum governo, empresa ou organização conseguirá responder sozinho a esse desafio sistêmico.
Neste Mês de Proteção às Florestas, a principal mensagem que gostaria de deixar é esta: as florestas constituem parte essencial do patrimônio do agronegócio brasileiro, elas que regulam o clima, garantem a disponibilidade de água e sustentam a produtividade no campo. Proteger esse patrimônio natural não significa impor limites ao desenvolvimento, mas assegurar que ele continue sendo possível. Afinal, o futuro da economia dependerá cada vez mais da nossa capacidade de produzir regenerando.
(*) Hugo Ricardo é Gerente de Agricultura e Florestas Pacto Global da ONU – Rede Brasil







