Resultado positivo nas exportações convive com alta de custos, volatilidade cambial e mudanças nas regras globais, forçando revisão das operações
Da Redação
Brasília – O Brasil mantém uma trajetória recente de superávits elevados na balança comercial, sustentada principalmente pelo desempenho do agronegócio e de commodities. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) mostram que o país tem registrado resultados positivos consecutivos nos últimos anos.
Ainda assim, esse desempenho convive com uma pressão crescente sobre a rentabilidade das empresas, diante da alta de custos logísticos, da volatilidade cambial e de mudanças nas regras do comércio global.
Murillo Oliveira, especialista em investimentos e estruturação financeira internacional e Head of Treasury da Saygo, afirma que o resultado agregado esconde desafios operacionais relevantes. “O superávit não significa que as empresas estão ganhando mais. Muitas estão vendendo mais, mas com margens comprimidas por custos que não aparecem na leitura macro dos dados”, diz.
A combinação de fatores externos ajuda a explicar esse movimento. A manutenção de juros elevados em economias centrais, oscilações cambiais frequentes e o avanço de políticas protecionistas têm aumentado o custo das operações internacionais e reduzido a previsibilidade financeira.
Medidas como a imposição de tarifas adicionais sobre produtos importados, adotadas por grandes economias, afetam diretamente a competitividade de exportadores brasileiros.
CNI destaca peso dos custos logísticos e fiscais
Além disso, gargalos logísticos e tributários seguem pressionando as operações. Levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) indica que custos logísticos e fiscais podem representar cerca de 30% das operações de comércio exterior no Brasil, impactando diretamente a margem das empresas.
Para o especialista, a diferença entre empresas que preservam resultado e aquelas que perdem competitividade está na forma como estruturam suas operações. “Hoje, margem não se protege só com preço ou volume. Ela depende de gestão financeira, estratégia cambial e eficiência operacional integrada”, afirma.
Esse movimento tem levado companhias a rever processos, buscar novos mercados e investir em inteligência financeira. A diversificação geográfica tem sido uma resposta ao aumento de barreiras comerciais e à concentração em poucos destinos, enquanto cresce a demanda por soluções que integrem câmbio, logística e tributação em uma única visão de controle.
“A empresa que opera no exterior sem visibilidade de ponta a ponta está exposta. Pequenas variações de custo ou câmbio já são suficientes para transformar lucro em prejuízo”, afirma.
O especialista aponta cinco decisões para proteger margens no comércio exterior mesmo com pressão de custos
Na prática, companhias que conseguem sustentar rentabilidade adotam uma combinação de decisões estruturais que integram estratégia financeira, operação e inteligência de mercado.
- Estruturar a gestão cambial
A volatilidade do dólar segue como um dos principais riscos das operações internacionais. Instrumentos como hedge, contratos a termo e contas em moeda estrangeira permitem reduzir a exposição e trazer previsibilidade ao caixa. “O câmbio não pode ser tratado como uma variável passiva. Ele precisa fazer parte da estratégia”, afirma.
- Diversificar mercados e moedas
A dependência de poucos destinos amplia o risco comercial. A entrada em regiões como Europa e Ásia tem sido uma alternativa para diluir impactos de tarifas e instabilidade geopolítica, ainda que isso exija maior preparo operacional.
- Revisar a estrutura de custos logísticos e tributários
Frete internacional, armazenagem e impostos continuam entre os principais pontos de pressão. O uso de regimes especiais, como drawback, e estratégias fiscais regionais pode reduzir significativamente o custo final das operações.
- Integrar dados financeiros e operacionais
A fragmentação de informações dificulta a tomada de decisão. Plataformas que centralizam dados de câmbio, logística e compliance permitem antecipar riscos e ajustar rotas com mais agilidade.
- Contar com assessoria especializada
Empresas que operam com suporte técnico conseguem negociar melhores condições, acessar benefícios fiscais e estruturar operações mais eficientes. “Não é só sobre executar a operação, mas sobre desenhar a estratégia correta antes dela acontecer”, afirma.
Apesar dos desafios, a reorganização das cadeias globais tem criado novas oportunidades para países exportadores. O Brasil pode se beneficiar desse movimento, desde que consiga equilibrar volume e rentabilidade nas operações internacionais.
“A oportunidade existe, mas não é automática. Quem tiver controle, inteligência financeira e capacidade de adaptação vai capturar valor. Quem operar no automático tende a perder margem, mesmo com crescimento de vendas”, conclui.







