O peso da História no atual conflito entre EUA e Irã

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Victor Missiato (*)

Por volta do século V a.C., uma guerra no Mediterrâneo Oriental alteraria profundamente aquilo que, mais tarde, viríamos a chamar de Ocidente e Oriente. Categorias não apenas geográficas, mas sobretudo políticas e culturais, essas divisões foram consolidadas pelo lado vencedor do conflito. Quando os gregos impediram o avanço de Dario I e, posteriormente, derrotaram Xerxes, seu filho, estabeleceram um paradigma civilizacional: de um lado, o racionalismo e a liberdade política atribuídos à cultura grega — até então fragmentada em cidades-estados —; de outro, um Oriente descrito como exótico, despótico e movido por interesses arbitrários.

Em 2026, a leitura que o “Ocidente” faz do “Oriente” não se alterou substancialmente. O Irã — herdeiro histórico da antiga Pérsia — ainda é frequentemente enquadrado como parte de um suposto “Eixo do Mal”, embora, em diferentes momentos do século XX, tenha sido aliado estratégico de potências ocidentais. Estruturado sob um regime teocrático xiita e marcado por forte retórica antiamericana e anti-israelense, o governo iraniano também reforça essa clivagem simbólica ao sustentar tensões regionais e apoiar grupos armados no Oriente Médio.

Evidentemente, o atual conflito envolvendo Israel, Estados Unidos, Irã e países árabes não pode ser analisado apenas à luz do passado clássico. O componente religioso — judaísmo, cristianismo e islamismo — exerce influência significativa na formação das identidades e das animosidades contemporâneas. Além disso, fatores geopolíticos são decisivos: a aproximação do Irã com China e Rússia, a disputa por zonas de influência e a centralidade estratégica do petróleo ajudam a explicar por que cada movimento militar é cuidadosamente calibrado de acordo com interesses políticos e econômicos de longo alcance.

Diante desse cenário, o peso da História torna-se incontornável. A questão central reside em saber se o “Ocidente” conseguirá reaproximar o Irã de sua esfera de influência — hoje enfraquecida — ou se prevalecerá a manutenção de um regime firmemente antiocidental, liderado pelos aiatolás e sustentado por parcelas significativas da população, além do aparato da poderosa Guarda Revolucionária.O Irã não é a Venezuela, país com menor densidade estratégica e capacidade de projeção regional. Tampouco é o Iraque ou o Afeganistão,

marcados por intervenções externas e fragmentações políticas duradouras. O Irã ocupa posição singular na história da civilização: foi protagonista das Guerras Médicas e elemento constitutivo da própria divisão simbólica entre Oriente e Ocidente. Compreender a trajetória persa e a centralidade do xiismo na cultura político-religiosa iraniana implica reconhecer que a simples derrubada de uma liderança não produz, necessariamente, transformação ideológica profunda no longo prazo.

Após derrotarem os persas, os gregos mergulharam em conflitos internos que contribuíram para sua própria decadência histórica. Resta indagar se uma eventual vitória ocidental no atual embate não poderia assumir contornos de “vitória de Pirro”, revelando novas fraturas e acelerando um processo de fragmentação diante da ascensão de potências orientais, em especial a China.

A História não se repete em círculos, tampouco desaparece. Ela impõe seu peso sobre o presente e impacta nos horizontes do futuro.

(*) Victor Missiato, professor de História do Colégio Presbiteriano Mackenzie, Tamboré. Dr. em História e analista político

 

 

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