Na mesa ou no cardápio: por que geopolítica virou pauta de conselho de administração

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Frederico Lamego e Antonio Carlos Lessa (*)

“Ou você está na mesa, ou está no cardápio.” Mark Carney recuperou a frase em Davos, em janeiro, e falava de potências médias: países sem status de superpotência que, somados, movem a maior parte do comércio mundial. A frase não é dele. Circula desde os anos 1990, sem autor conhecido, e serviu sempre para descrever Estados. Agora descreve empresas.

A ONU, o FMI e a OMC continuam existindo, e continuam produzindo relatórios. O que a OMC já não produz é decisão executável. Desde dezembro de 2019, o Órgão de Apelação está paralisado porque os Estados Unidos bloqueiam a indicação de novos árbitros, e quem perde um painel apela para uma instância que não existe.

Vinte e sete membros, o Brasil entre eles, montaram um arranjo provisório de arbitragem para contornar o impasse; ele vale só entre quem aderiu, e os Estados Unidos não aderiram. Foi assim que o Brasil venceu painéis contra a Índia e a Indonésia, no açúcar e na carne de frango, e ficou sem poder executar nenhuma das duas decisões. Rompida uma regra, não há a quem recorrer. Resta negociar.

Tarifaço americano, transição energética, reindustrialização puxada pela defesa, corrida da inteligência artificial. Alguém ainda acha que isso é assunto de departamento de estudos? Geopolítica virou competência de gestão. Em poucas companhias brasileiras, porém, essa capacidade gerencial tem dono no organograma.

A pergunta que costumamos ouvir é sempre a mesma: qual o efeito desta crise sobre o câmbio do próximo trimestre, ou sobre determinada linha de produção? É pergunta legítima, e chega tarde. O risco político já foi precificado bem antes, no spread que a empresa paga para captar lá fora, no prêmio do seguro de crédito à exportação, na garantia adicional que o parceiro estrangeiro passa a exigir sem explicar o porquê.

A manchete não espera nada disso. A pergunta mais útil é também a mais incômoda, e não pede profecia: se determinada rota se fechar, quais decisões desta diretoria mudam? E quantas delas já foram tomadas de forma irreversível?

Desde 1º de maio, a parte comercial do acordo entre o Mercosul e a União Europeia está em vigor provisoriamente. Vinte e seis anos de negociação, assinatura em janeiro, tarifas já caindo, cotas regulamentadas por portaria da Secex. O acordo definitivo, esse, continua indefinido. O Parlamento Europeu pediu ao Tribunal de Justiça da União Europeia parecer sobre a compatibilidade do texto com os tratados do bloco, e a análise pode levar dois anos.

A empresa que hoje monta sua planilha de exportação sob as novas cotas depende, portanto, de uma corte em Luxemburgo e da ratificação por 27 parlamentos nacionais. A França já votou contra. Minerais críticos, semicondutores, energia limpa, defesa: quanto mais o Brasil se conecta a essas cadeias, mais o que se decide fora daqui aparece no balanço de companhias que nunca exportaram um contêiner.

Terras raras servem de teste, e o teste é recente. O Brasil aparece nas estatísticas do USGS com cerca de 21 milhões de toneladas de óxidos, ou 23% das reservas mundiais, atrás só da China. O número pede cautela: a Agência Nacional de Mineração revisou o estoque para 11,4 milhões de toneladas no Sumário Mineral de 2025, ao adotar critério internacional mais estrito. O país segue em segundo lugar de qualquer forma. E extrai menos de 1% do volume mundial. Uma só mina opera em escala comercial, a Serra Verde, em Minaçu, Goiás, que começou a produzir em janeiro de 2024 e vende concentrado misto de óxidos. Separação, metalurgia e ímãs continuam do outro lado do mundo.

Em 2026, a Serra Verde foi comprada pela americana USA Rare Earth, em operação avaliada em US$ 2,8 bilhões e amparada por financiamento da agência de desenvolvimento do governo dos Estados Unidos, enquanto o marco legal brasileiro para minerais críticos ainda se discutia. Está aqui o limite do argumento que defendemos, e convém reconhecê-lo. Nenhuma leitura geopolítica, por refinada que seja, ergue uma unidade de separação nem financia a década de maturação que um projeto desses exige. Mas responde a uma pergunta que ficou sem resposta em Minaçu: quem sabia, e há quanto tempo?

Compreender geopolítica não é erudição a ser terceirizada. É competência a ser internalizada por quem decide nas empresas brasileiras, do conselho de administração ao planejamento de médio prazo. Alguém precisa ter autoridade para travar um cronograma enquanto ainda dá tempo. Só assim a turbulência da nova ordem internacional vira vantagem competitiva. Do contrário, continuaremos no cardápio, e não na mesa.

Frederico Lamego é assessor especial da Presidência da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e Antonio Carlos Lessa é professor Titular do Instituto de Relações Internacionais da UnB (*)

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