Da Redação (*)
Brasília – O governo brasileiro intensificou as negociações com a União Europeia para tentar evitar impactos nas exportações de produtos de origem animal ao bloco. Ontem (16), durante encontro do G7, representantes do Ministério da Agricultura e da Direção-Geral da Saúde e Segurança Alimentar da União Europeia (DG Santé) realizaram uma nova rodada de reuniões para discutir mecanismos de controle e comprovação da não utilização de substâncias proibidas pelos europeus na alimentação e no tratamento de animais destinados à exportação.
Em nota divulgada pelo Palácio do Planalto, os dois lados se comprometeram a buscar soluções que contemplem as preocupações europeias de ordem sanitária, fitossanitária e industrial, ao mesmo tempo em que preservem os interesses exportadores brasileiros e os avanços previstos no acordo Mercosul-União Europeia. A nota anuncia ainda a criação de um mecanismo bilateral para destravar as exportações agropecuárias.
A mobilização ocorre após a decisão da União Europeia de retirar o Brasil da lista de países autorizados a exportar determinados produtos de origem animal para o bloco europeu. A restrição foi oficializada em 5 de junho e tem entrada em vigor prevista para 3 de setembro, atingindo carne bovina, carne de frango, carne equina, pescado, mel e tripas.
UE acusa Brasil de não cumprir garantias
Segundo a UE, a medida foi adotada porque o Brasil não apresentou informações e garantias consideradas suficientes para comprovar o cumprimento das exigências previstas no artigo 118 do Regulamento Europeu 2019/6, complementadas pelo Regulamento Delegado 2023/905. O principal ponto de preocupação é o uso de medicamentos antimicrobianos na produção animal e os riscos associados à resistência microbiana.
O impacto econômico pode ser expressivo. O setor de proteína animal estima perdas próximas de US$ 2 bilhões por ano caso o mercado europeu permaneça fechado aos produtos brasileiros. Apesar da abertura do canal de diálogo, o setor produtivo acompanha o tema com atenção, uma vez que o prazo para entrada em vigor da medida se aproxima e ainda não há definição sobre uma eventual revisão da restrição.
Para o sócio-diretor do Banco Fiscal, Pedro Schuch, a medida representa um dos episódios mais relevantes para o comércio exterior brasileiro nos últimos anos.
“Essa é uma notícia preocupante para a exportação de carnes brasileiras, sobretudo porque o mercado da União Europeia é muito valorizado e tem alta demanda de carne brasileira. É curiosa, porque nós tivemos recentemente um acordo internacional fechado entre Brasil e União Europeia para exportação de alimentos, que, em tese, reduziria as tarifas brasileiras na União Europeia – e agora vimos essa notícia dos embargos sanitários”, afirma.
Schuch destaca que o motivo alegado pela UE também chama atenção. “O ponto que surpreende é que o embargo aconteceu sob o pretexto de que o Brasil não teria cumprido com documentos e informações sobre agentes antimicrobianos na carne. Nós já tivemos uma situação muito semelhante no passado com os pescados, que também sofreram restrições por parte da Europa por questões sanitárias, e ficaram muitos anos sem o Brasil poder exportar esse produto para a Europa.”
O executivo também contextualiza a medida dentro de um cenário mais amplo de desafios ao comércio exterior brasileiro. “O Brasil, nas últimas semanas, vem enfrentando dificuldades importantes de mercado internacional, primeiro com o aumento das tarifas americanas, agora com a restrição de carne para a União Europeia e restrições de muitos outros produtos exportados pelo Brasil. Então, a situação é bastante delicada.”
Além dos efeitos diretos sobre frigoríficos e exportadores, Schuch ressalta os impactos em toda a cadeia produtiva. “A produção de carne acaba afetando toda uma corrente de negócios interdependentes. A carne gera grande volume de aquisição de ração, que é feita através da produção de grãos, como milho e outros insumos. Isso alimenta uma indústria que produz esses grãos e essa ração animal, movimentando todo um segmento.”
Para ele, o embargo pode provocar reflexos relevantes na economia nacional. “O embargo das importações tem um forte impacto na economia brasileira e cabe agora aos órgãos responsáveis negociarem de forma diplomática a retirada dessas restrições. O Brasil é hoje um dos maiores exportadores de carne do mundo. Então, o impacto é bastante relevante.”
Mercado aquecido
A relevância do mercado europeu para o setor explica a preocupação da cadeia produtiva. A União Europeia é atualmente o terceiro maior destino da carne bovina brasileira, atrás apenas de China e Estados Unidos. Em 2025, as exportações de carne bovina para o bloco somaram US$ 1,048 bilhão, com embarques de 128 mil toneladas.
A carne de frango também possui forte presença no mercado europeu. Em 2025, o produto gerou US$ 762 milhões em receitas de exportação, com um volume de 230 mil toneladas embarcadas. Já a carne suína registrou exportações de 542,8 toneladas, movimentando US$ 2,3 milhões.
Os números mais recentes mostram que a demanda europeia por proteína animal brasileira segue aquecida. De acordo com relatório da Associação Brasileira de Proteína Animal referente ao período de janeiro a março de 2026, o Brasil exportou para a União Europeia US$ 508,7 milhões em proteínas animais, totalizando 116,5 mil toneladas. O desempenho reforça a importância estratégica do bloco para o agronegócio brasileiro e ajuda a dimensionar os impactos potenciais das restrições anunciadas pela União Europeia.
(*) Com informações do Banco Fiscal






