Leo Braga (*)
Do ponto de vista da política externa brasileira, historicamente o Brasil apresenta dois comportamentos em relação à maneira como busca se inserir no sistema internacional. O chamado paradigma americanista indica as possibilidades de inserção qualificada mais alinhada aos interesses e às oportunidades junto aos Estados Unidos.
O outro paradigma, o chamado globalista, indica a inserção brasileira no sistema internacional em perspectivas mais globais que guardam a participação mais efetiva em termos multilaterais e do papel do Brasil nas organizações internacionais. Se no primeiro caso, o Brasil segue ajustando os seus interesses e suas opções junto àquelas dos Estados Unidos, no segundo caso, o Brasil assume postura de maior autonomia relativa.
A política doméstica brasileira tem passado nos últimos 10 anos por um processo de maior polarização ideológica e político-partidária. O que se convencionou chamar, desde a Revolução Francesa, de esquerda e de direita traz, no caso brasileiro, em relação à direita, uma aproximação aos ideais liberais e conservadores voltados a uma tradição de pensamento própria da política ou da ciência política americana. Em relação à esquerda, seu rechaço, colocando o Brasil em perspectiva política mais progressista. O Brasil tem experimentado essa volatilidade na política doméstica empurrando as posições políticas de direita e de esquerda em posições 180° antagônicas.
Tudo mais constante, o retorno do presidente Lula no terceiro mandato reaproximou o Brasil à percepção da defesa de valores não apenas democráticos, mas também de posturas e inclinações multilaterais e de busca por maior diálogo na comunidade internacional. Contudo, importa considerar que os espaços de manobra de diálogo e de concertação política a que o Brasil da Era Lula do primeiro e do segundo mandatos não mais podem ser observados com o mesmo grau de otimismo e as mesmas oportunidades de movimentação do país no meio internacional.
As relações internacionais de hoje estão menos propensas à inserção mais qualificada do Brasil e à defesa do multilateralismo, dado especialmente o comportamento dos Estados Unidos. Mas não nos enganemos. A tensão que observamos hoje entre Brasil e Estados Unidos não é novidade e a observamos noutros momentos na nossa história política doméstica e externa.
Para fins de análise daquilo que pode ser uma percepção do Brasil no mundo, especialmente considerando as nossas eleições, talvez caiba considerar o que segue. Independentemente da inclinação político-ideológica e dos alinhamentos diplomáticos mais ou menos evidentes, a história comercial brasileira tem sido uma só desde 2009 – entre governos mais à esquerda ou mais à direita do espectro político: a China consolidou-se como nosso maior parceiro comercial, com o volume de comércio (USD 171 bilhões) mais que o dobro daquele do Brasil com os Estados Unidos (USD 83 bilhões), segundo dados Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
Por outro lado, da mesma maneira independente do espectro político-ideológico, ainda são os Estados Unidos, incomparavelmente, o maior investidor no Brasil. O estoque de investimento externo direto dos Estados Unidos (USD 360 bilhões) é quatro vezes maior que aquele da China (USD 90 bilhões de dólares) de investimento externo direto, em valores aproximados, segundo o Banco Central do Brasil.
Essas duas informações nos querem dizer que, para além dos discursos dos posicionamentos político-partidários e das tensões ideológicas, o Brasil mantém uma trajetória pouco propensa a grandes rupturas do ponto de vista pragmático no que toca comércio e investimentos. O rechaço à postura do atual governo americano não nos fez abrir mão dos investimentos americanos e a simpatia à China e o volume de comércio não nos fez ingressar oficialmente à nova rota da seda, na América Latina.
Podemos considerar que isso indica uma posição madura do Brasil naquilo que importa ao país dada a sua condição de ainda um país em desenvolvimento, qual seja, saber separar o que sejam movimentações político-ideológicas de fins partidários e eleitorais daquilo que encaminha o Brasil no sistema internacional do ponto de vista pragmático de comércio e investimento. Resta saber, por outro lado, como a imagem brasileira e não o seu comércio ou seu investimento pode ser impactada a partir das eleições.
É verdade que a postura do governo Trump do que tem se convencionado chamar com alguma imprecisão de doutrina Donroe, talvez considere a oportunidade de endurecer a posição americana em relação ao Brasil, especialmente, em termos de movimentos políticos e de alianças políticas com a chance da vitória da esquerda nas eleições por que estamos passando. Mas, importa considerar, sem dúvida, que o Brasil possui condição geopolítica, geoeconômica, geoestratégica muito própria e que não pode ser confundida com aquilo que tem orientado o comportamento americano em relação à América Latina como um todo e de modo especial em relação ao Caribe. O que esquece de dizer é que o Brasil possui uma condição especial na região dada sua economia, seu território e suas relações globais mais diversas. E aí, de fato, “o Brasil não cabe o quintal de ninguém”, nem no quintal geográfico dos Estados Unidos aqui nas Américas, tampouco no quintal geoeconômico chinês da Nova Rota da Seda.
Se por um lado, os Estados Unidos tentam assim agir em relação ao Brasil impondo tarifas alfandegárias, formalizando classificações jurídicas em relação a grupos internos como terroristas; por outro lado, a capacidade do Brasil de articular alinhamentos em dada perspectiva anti-hegemônica, que se inclina a algum tipo de revisão da distribuição do poder no sistema internacional, favorece a crítica àquilo que os Estados Unidos têm representado nos dias de hoje, até então: um país desinteressado do diálogo, inclinado a posições e posturas que contrariam as melhores práticas da diplomacia e do multilateralismo global. Aqui a imagem do Brasil, certamente, pesa como país mais globalista.
Ainda assim, é preciso ter cuidado para não confundir uma tradição globalista de inserção internacional dialógica, multilateral e cooperativa com uma crítica aos Estados Unidos que contribua para consolidar a imagem do Brasil não apenas como país atento e contrário à hegemonia americana, se assim é, mas que também desloque o Brasil para um eixo que, eventualmente, arranhe sua imagem em alguma ou grave medida. Não é de se desconsiderar os impactos à sua imagem quando trazida ao eixo do BRICS, que vive de algumas grandes democracias, mas tantos outros países que sequer assim o são.
A ganhar a esquerda as eleições no Brasil, seguiremos com o risco de ter nossa imagem vinculada àquilo que depõe contra o exercício mais sincero de se opor à hegemonia global. Continuaremos de modo contundente vinculado a um grupo de países – o BRICS – em larga medida, menos interessados em respeitar direitos humanos, que respaldam seus discursos em elementos de soberania tradicional e que não ajuda o Brasil naquilo que colocou sempre o país como interlocutor privilegiado no sistema internacional, qual seja, a sua posição de defender aquilo que importava aos países do Sul – democracia, diálogo multilateral, justiça.
A seguir com a vitória da direita ou ainda da extrema direita se dará ao Brasil o risco de desmantelar ou diminuir a importância das suas relações internacionais ou de sua participação nas plataformas multilaterais e levar a imagem do Brasil há uma posição de desgaste mais significativo com o restante do mundo. Isso poderá projetar a imagem do Brasil como país pouco interessado com a ordem global multilateral, justa e equitativa, colocando-nos junto àqueles que menosprezam o diálogo franco, que sempre nos conduziu ao papel de destaque nos foros internacionais.
De qualquer modo, parece que cada um desses resultados implica uma ranhura na imagem do Brasil. Dada alguma ênfase de intensidade mais progressista ou mais dita nacionalista, o Brasil seguirá sendo o Brasil dos últimos 10 anos, um país com desafios a superar na política internacional em relação àquilo que se formou com sua trajetória diplomática – autônoma, multilateral e globalista – em contradição àquilo que considera, recentemente, como conduta oportuna em suas relações internacionais – alinhamentos (para lá ou para cá) temerários, hesitantes e que maculam tal trajetória.
(*) Leo Braga, professor do Curso de Relações Internacionais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio






