A reunião de Lula e Trump e as relações Brasil-EUA

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Fernanda Brandão (*)

Na tarde da última quinta-feira, dia 7, o Presidente Lula foi recebido pelo Presidente Trump na Casa Branca. A expectativa em torno do encontro entre os dois presidentes era grande diante do cenário de relações diplomáticas recentes marcadas por tensionamento e aplicação de tarifas comerciais pelos Estados Unidos. A reunião aconteceu após um longo período de esforço diplomático brasileiro em reestabelecer canais de comunicação com o governo americano. Apesar da tensão que permeia a relação entre os dois países, as declarações feitas pela Casa Branca e pelo governo brasileiro sinalizaram que o encontro entre os dois chefes de estado foi considerado bem-sucedido por ambos os lados.

Havia expectativa da conversa entre os dois presidentes tratasse de temas como acesso a minerais críticos, combate ao crime organizado e o fim das tarifas de importação impostas pelo governo americano sobre produtos brasileiros. Havia também a expectativa de que os presidentes falassem em conjunto com a imprensa, o que foi cancelado sob a justificativa de que o encontro se estendeu para além da expectativa. O encontro durou cerca de três horas e as fotos divulgadas revelaram um clima amistoso entre os dois presidentes.

Em declaração à imprensa feita na Embaixada brasileira em Washington, o presidente Lula afirmou que os temas discutidos envolveram a remoção das tarifas de exportação, minerais críticos e terras raras e a formação de uma coalização para o combate ao crime organizado na região. Temas como o pix e a classificação de grupos de crime organizado brasileiros como o CV e o PCC como terroristas, considerados mais sensíveis, não fizeram parte da discussão. Foi anunciado também que os corpos diplomáticos dos dois países dariam continuidade a negociações com o objetivo de remover plenamente as tarifas sobre exportações brasileiras e dar continuidade à cooperação em outros temas abordados por ambos os presidentes.

Sobre minerais críticos e terras raras, o presidente Lula reafirmou a soberania nacional sobre o tema e a disposição do país de cooperar com parceiros que queiram investir na exploração e refinamento desses minerais em solo nacional, contribuindo para o desenvolvimento econômico do Brasil. O governo americano tem utilizado a imposição de tarifas sobre importações desproporcionais com o objetivo de forçar parceiros a renegociarem os termos de comércio entre os dois países e nesses acordos têm incluídos cláusulas de facilitação de investimento americano para exploração, mineração, extração, refinamento, processamento, transporte, distribuição e exportação de minerais críticos e terras raras.

Assegurar acesso a esses recursos tem sido uma das prioridades da política externa americana sob o governo Trump em um cenário em que a China domina a exploração desses minerais e tem praticamente o monopólio do processamento desses minerais. O Brasil tem as segundas maiores reservas conhecidas de minerais críticos e pode se tornar um importante parceiro para os Estados Unidos a fim de reduzir sua dependência da China nesse setor.

Além disso, a disposição em dar continuidade às negociações para eliminação das tarifas sobre os produtos brasileiros é reflexo também da crescente pressão interna que o presidente americano tem sofrido pelo aumento do preço dos alimentos e do custo de vida por causa das tarifas, agravado pelo conflito no Irã e o aumento dos preços dos combustíveis. A renegociação das tarifas sobre produtos alimentícios brasileiros pode contribuir para a redução de preços domesticamente, mas seu impacto será limitado diante da tendência inflacionária global por conta do aumento do preço dos combustíveis. Ainda assim, a remoção dessas tarifas terá impacto positivo sobre os exportadores brasileiros.

O encontro entre os dois presidentes deixou a percepção de que há um bom diálogo entre os dois países e boas perspectivas para o avanço da cooperação econômica entre os dois países. Trump parece ter adotado um tom menos agressivo em relação ao presidente brasileiro, apesar das divergências ideológicas entre os dois e sua proximidade com o ex-presidente Jair Bolsonaro, fazendo inclusive declarações sobre como admira a disposição e ânimo do presidente brasileiro. Os Estados Unidos continuam sendo o segundo parceiro comercial do Brasil, o que torna importante a manutenção de boas relações diplomáticas entre os dois países, principalmente em um cenário de crescente competição e fragmentação na economia internacional.

(*) Fernanda Brandão, coordenadora do curso de Relações Internacionais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio

 

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