André Barros e Prof. Leopoldo Rocha Soares (*) (**)
Historicamente, a universidade e a indústria caminharam em ritmos distintos. Por séculos, as instituições de ensino superior se dedicaram à produção teórica e à formação conceitual, observando o dinamismo social a uma distância confortável. Do outro lado, o setor produtivo e de tecnologia focou nas urgências do presente, acelerando processos para responder às pressões do mercado. Contudo, na era da inteligência artificial (IA), essa lacuna histórica deixou de ser apenas um descompasso natural para se tornar um risco real ao desenvolvimento e à empregabilidade.
As transformações trazidas pela inteligência artificial não representam um cenário apocalíptico de substituição do trabalho humano, mas sim uma redistribuição de papéis. Estudo do Fórum Econômico Mundial aponta que, enquanto dezenas de milhões de tarefas repetitivas e burocráticas serão automatizadas, um número ainda maior de novas ocupações surgirá. A tecnologia tem o potencial de devolver ao profissional o tempo roubado pelo peso de processos ineficientes. O desafio crucial, portanto, não é a falta de postos de trabalho, mas a rápida obsolescência das competências tradicionais.
Para responder a esse cenário de constante ebulição, a academia precisa definitivamente romper o seu encastelamento. Não basta ensinar conceitos teóricos consolidados no passado; é preciso exercer a extensão acadêmica em sua essência, conectando o conhecimento teórico aos problemas reais e complexos da sociedade e das empresas. Quando a indústria leva seus desafios reais para o ambiente universitário, por meio de hackathons, resoluções de cases e programas de inovação, ela encontra neurônios oxigenados, mentes jovens e sem preconceitos operacionais, capazes de formular perguntas que o mercado muitas vezes não ousa fazer. Por outro lado, a universidade ganha repertório vivo para balizar suas pesquisas e adaptar suas matrizes curriculares.
Simultaneamente, o profissional que deseja transitar com relevância nessa nova ordem precisa revisar sua postura em relação ao aprendizado. O diploma universitário não é mais uma linha de chegada, mas um ponto de partida para o lifelong learning — a aprendizagem ao longo de toda a vida. Além do aprofundamento técnico e especialista (hard skills), ganha centralidade o conceito do profissional em “T”: aquele que une a verticalidade do seu saber específico à horizontalidade de habilidades transversais e comportamentais (soft skills).
Em um mercado cada vez mais povoado por robôs e algoritmos generativos, a diferenciação humana residirá justamente na capacidade de comunicação, inteligência emocional, liderança, visão de projetos e protagonismo intraempreendedor. Saber gerir pessoas e projetos com o suporte da IA passa a ser uma exigência universal, independentemente da área de atuação. Como diz o provérbio contemporâneo, “em terra de robô, quem tem coração é rei”.
O alinhamento entre quem produz conhecimento e quem vivencia a prática do mercado não é um luxo educacional, mas uma exigência de sobrevivência e prosperidade para o ecossistema econômico. Somente aproximando a velocidade da inovação corporativa da capacidade reflexiva e transformadora da universidade será possível formar profissionais preparados não apenas para adaptar-se ao futuro, mas para construí-lo.
(*) André Barros – CEO da eComex
(**) Prof. Leopoldo Rocha Soares – Diretor Acadêmico do Centro de Ciências e Tecnologia campus Campinas da Universidade Presbiteriana Mackenzie







