País tem 52% dos assalariados sem INSS, substituição de vagas por máquinas no Nordeste e indígenas submetidos a -9ºC nas colheitas do Sul.
Da Redação (*)
Brasília – O Brasil movimenta R$ 15 bilhões anuais nas cadeias da manga, uva e maçã, consolidando a posição de terceiro maior produtor de frutas do mundo. A dimensão dos volumes exportados oculta uma base de trabalho assentada na desproteção estrutural. Um levantamento conduzido pela Molina Consulting e pela Oxfam Brasil radiografou o mercado assalariado rural do país, revelando que 69,2% dos trabalhadores do setor agropecuário atuam na informalidade. O dado estatístico projeta um colapso social futuro, pois 52% dos assalariados rurais não recolhem contribuições para a Previdência Social.
A estrutura de remuneração no campo obedece a recortes de cor e gênero. A mulher preta ocupa a base da pirâmide salarial da categoria, recebendo um rendimento médio de R$ 1.449,00 mensais. Homens brancos na mesma atividade alcançam R$ 2.494,00. A disparidade comprova que a raça atua como o principal definidor da remuneração agrícola. O perfil da força de trabalho alia baixos salários a uma escolaridade restrita. Mais da metade dos ocupados não concluiu o ensino fundamental, travando as possibilidades de mobilidade ocupacional.
“A riqueza gerada pela exportação se alimenta da vulnerabilidade histórica dessas populações”, afirma Viviana Santiago, diretora executiva da Oxfam Brasil. “Temos um contingente imenso que passa a vida nas lavouras e chegará à velhice sem direito a qualquer assistência do Estado, já que o modelo produtivo atual extrai a capacidade humana no limite e normaliza a exclusão da mulher negra e a exploração do trabalhador indígena”.
O descarte programado na Serra Gaúcha
A realidade nos polos exportadores prova que a formalização temporária absorveu a instabilidade do mercado informal. As fazendas de maçã e uva no Rio Grande do Sul registram a rescisão de 80,2% e 90,2% dos vínculos formais, respectivamente, antes do término do ano civil. As admissões inundam a região de forma concentrada em janeiro e fevereiro. Desligamentos em massa ocorrem impreterivelmente no mês de março.
A janela de colheita atrai fluxos migratórios do Mato Grosso e do Paraguai. Indígenas compõem 21,4% da força de trabalho na maçã gaúcha. A rotina impõe o alcance de metas agressivas sob temperaturas de -8ºC a -9ºC nos pomares. Trabalhadores suprimem o consumo de água e as idas aos banheiros para garantir a produção diária exigida. O adoecimento derivado da exaustão física e do frio extremo sofre omissão crônica nos registros do sistema de Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT).
Mecanização e veneno no Vale do São Francisco
O cenário nos pomares irrigados de Pernambuco e Bahia fundamenta-se na substituição tecnológica e na exposição química silenciosa. O avanço das colheitadeiras eliminou mais de 40% das vagas manuais na cultura da manga local. Uma única máquina executa em uma semana o volume de trabalho que exigiria cem pessoas durante um mês. A operação dessas novas tecnologias permanece restrita a trabalhadores homens. Os grupos deslocados migram compulsoriamente para turmas informais pagas por diária, abrindo mão de garantias básicas.
As posições de campo submetem os colhedores à contaminação por agrotóxicos de modo contínuo. Lideranças sindicais estimam a notificação de apenas um caso formal de intoxicação nas unidades de saúde para cada cinquenta ocorrências reais. As empresas do setor preparam as fazendas para o momento exato das auditorias, mascarando o manuseio de químicos para garantir a manutenção das certificações internacionais.
Nos galpões de seleção e embalagem, o esgotamento atinge diretamente as mulheres. A rotina alcança 16 horas diárias ao integrar o trajeto intermunicipal e o trabalho doméstico ao fim do dia. Exigências ininterruptas da linha de produção causam infecções urinárias recorrentes entre as funcionárias. A pulverização dos contratos e a migração sazonal esvaziam a capacidade de organização coletiva da categoria. Os sindicatos enfrentam o obstáculo de atuar em uma base que se renova a cada três meses e desaparece das fazendas ao fim da safra. O agronegócio de exportação perpetua seu crescimento financeiro apoiado em uma massa de brasileiros tratada como insumo temporário, inviabilizando qualquer perspectiva de ascensão social ou segurança trabalhista para quem cultiva a terra no Brasil.
(*) Com informações da Oxfam Brasil







