Por que você não muda?

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O novo Comex já está batendo à nossa porta. A pergunta agora é se você está preparado para mudar com ele.

Helenice Sá Silva Lima (*)

O Comércio Exterior brasileiro atravessa uma transformação que já alterou sistemas, regras e critérios de conformidade. A DUIMP redesenha a importação. A Reforma Tributária reorganiza a lógica dos tributos. A Aduana avança para modelos baseados em dados, gestão de risco, automação e controle contínuo. O trabalho que durante décadas esteve concentrado em preencher, conferir e transmitir documentos começa a migrar para uma operação integrada, antecipada e cada vez mais assistida por tecnologia.

Diante desse cenário, uma pergunta incômoda precisa ser dirigida a cada profissional: por que você ainda trabalha, aprende e decide como se o Comex continuasse o mesmo?

A modernização do setor costuma ser discutida a partir de sistemas e processos. Essa leitura está incompleta. Tecnologia pode retirar tarefas repetitivas, cruzar documentos, identificar divergências e apoiar decisões. Processos podem reduzir etapas e liberar cargas com maior velocidade. Nenhuma dessas mudanças produz todo o seu potencial quando as pessoas preservam a mesma mentalidade, os mesmos silos e a mesma dependência da urgência.

O ponto mais relevante do novo Comex está na mudança de paradigma. A conformidade tende a se aproximar da própria operação; os dados passam a ser verificados ao longo da jornada; a fiscalização trabalha com inteligência e gestão de risco; e o profissional deixa de atuar somente diante de uma declaração ou de uma exigência. Ele precisa compreender o fluxo inteiro, antecipar impactos, avaliar a qualidade da informação e conversar com Fiscal, Tributário, Tecnologia, Logística, Compras, Finanças e fornecedores.

O cérebro prefere o caminho conhecido

A resistência à mudança não nasce apenas de falta de vontade. Há mecanismos cognitivos e fisiológicos envolvidos. O cérebro trabalha continuamente para reduzir incerteza e poupar esforço. Rotinas conhecidas exigem menos processamento consciente; situações novas demandam atenção, aprendizagem e revisão de referências. Quando a mudança é percebida como ameaça à competência, ao cargo, à reputação ou ao controle, a resposta de estresse pode se intensificar.

Uma meta-análise publicada na Psychological Bulletin mostrou que o estresse agudo pode prejudicar a memória de trabalho e a flexibilidade cognitiva, capacidades necessárias para lidar com informações novas, abandonar uma regra que perdeu validade e escolher outra resposta. Em termos profissionais, isso ajuda a explicar por que algumas pessoas, pressionadas por uma transformação, se agarram justamente ao modelo que já deixou de funcionar.

A psicologia econômica descreve outro mecanismo: o viés do status quo. William Samuelson e Richard Zeckhauser demonstraram que as pessoas atribuem vantagem desproporcional à opção já existente, mesmo quando há alternativas disponíveis. No ambiente corporativo, esse viés aparece em frases aparentemente prudentes: ‘sempre fizemos assim’, ‘vamos esperar a regra amadurecer’, ‘quando o sistema estiver pronto, aprendemos’ ou ‘isso é responsabilidade de outra área’. A prudência vira imobilidade, e a espera transfere o custo da preparação para o momento de maior pressão.

Compreender esses mecanismos ajuda a organizar a reação, mas não elimina a responsabilidade individual. O organismo pode preferir previsibilidade; a carreira exige capacidade de adaptação. Entre uma resposta automática e uma decisão consciente existe espaço para treinamento, repertório e escolha.

Uma questão antiga, com consequências atuais

Heráclito observou que novas águas correm para aqueles que entram nos mesmos rios. A ideia atravessou séculos porque descreve uma tensão humana persistente: buscamos estabilidade enquanto a realidade continua em movimento. No Comex, o rio já mudou. Tentar preservar a identidade profissional repetindo antigas tarefas equivale a dominar um mapa de uma cidade que está sendo reconstruída.

Aristóteles oferece uma contribuição ainda mais prática. Na Ética a Nicômaco, ele sustenta que certas disposições se aperfeiçoam pelo hábito. Competência, sob essa perspectiva, não surge de uma intenção genérica de melhorar. Ela se forma pela repetição de ações coerentes. Aplicada ao trabalho, essa leitura afasta a fantasia de que alguém se tornará adaptável apenas porque participou de um treinamento ou ouviu uma palestra sobre inovação.

Mudança profissional exige novos hábitos: reservar tempo para estudar a regulamentação antes que ela se torne uma emergência; testar recursos de inteligência artificial em atividades reais; analisar erros sem buscar culpados; pedir feedback; documentar decisões; compartilhar conhecimento; participar de comunidades profissionais; e acompanhar o impacto do próprio trabalho sobre toda a cadeia.

Rubem Alves escreveu sobre o risco de enxergarmos o novo pelos ‘óculos do velho’. A imagem serve ao setor. Muitas empresas compram uma tecnologia nova e obrigam a ferramenta a reproduzir o processo antigo. Muitos profissionais usam inteligência artificial como uma versão mais rápida do copiar e colar. Em ambos os casos, há investimento tecnológico sem revisão intelectual. A eficiência pode até aumentar, mas o modelo continua limitado pelas premissas anteriores.

As competências humanas que ganham valor

Quanto maior a capacidade dos sistemas de executar tarefas previsíveis, maior será a cobrança sobre aquilo que depende de julgamento humano. O profissional valorizado no novo Comex reunirá conhecimento técnico e um conjunto de competências comportamentais aplicadas à operação.

A primeira é a curiosidade disciplinada: formular perguntas melhores, investigar a origem de uma divergência e compreender por que uma regra existe. A segunda é a flexibilidade cognitiva: revisar hipóteses quando os dados contradizem a experiência anterior. A terceira é a comunicação: traduzir uma mudança aduaneira para Finanças, explicar um risco tributário à liderança e alinhar fornecedores sem ampliar ruídos. A quarta é a colaboração, porque conformidade e fluidez dependem de uma cadeia inteira. A quinta é a responsabilidade: assumir a qualidade da informação e agir antes que o erro seja identificado pelo cliente, pelo sistema ou pelo governo.

Também será necessária maturidade emocional para trabalhar em ambientes de transição. Isso inclui tolerar a condição temporária de aprendiz, fazer perguntas sem proteger a aparência de domínio e reconhecer que senioridade não garante atualidade. Experiência continua valiosa quando funciona como base para interpretar o novo. Quando se converte em argumento para bloquear experimentação, passa a comprometer a evolução.

A combinação entre gerações pode acelerar esse processo. Profissionais mais jovens trazem familiaridade com interfaces digitais, rapidez de experimentação e menor apego a certas rotinas. Profissionais experientes conhecem exceções, riscos, relações causais e consequências que raramente aparecem em manuais. Empresas inteligentes criam condições para que esses repertórios trabalhem juntos, com troca real e responsabilidade compartilhada. Rótulos geracionais, isoladamente, explicam pouco; a qualidade da interação explica muito.

Dados recentes da OCDE reforçam essa direção. Na era da inteligência artificial, competências como pensamento crítico, aprender a aprender, autorregulação, empatia, responsabilidade e colaboração permanecem relevantes. O mercado não separa técnica e comportamento na prática: conhecimento técnico sem comunicação paralisa decisões; colaboração sem domínio técnico fragiliza a conformidade; criatividade sem responsabilidade amplia riscos.

Protagonismo precisa aparecer na agenda

Protagonismo pessoal costuma ser tratado como uma característica abstrata. No trabalho, ele pode ser verificado em comportamentos concretos. O profissional protagonista acompanha mudanças regulatórias sem depender apenas de comunicados internos. Relaciona a nova regra aos processos da empresa. Procura entender ferramentas antes que seu uso se torne obrigatório. Propõe pilotos pequenos, mede resultados e compartilha o aprendizado. Constrói rede com pessoas de outras áreas e do mercado. Identifica lacunas na própria formação e estabelece um plano para corrigi-las.

As empresas também têm responsabilidade. Cobrar adaptação sem oferecer contexto, segurança para aprender e tempo de desenvolvimento produz ansiedade e conformidade superficial. Lideranças precisam explicar o que está mudando, quais capacidades serão necessárias, quais decisões podem ser experimentadas e como os erros de aprendizagem serão tratados. Treinamentos pontuais ajudam; aprendizagem contínua, prática e conectada à operação produz transformação consistente.

Ainda assim, nenhuma política corporativa substitui a decisão individual de se movimentar. Esperar que a empresa desenhe cada etapa da própria evolução profissional é uma escolha arriscada. No novo Comex, a velocidade da regulação, da tecnologia e dos modelos de negócio supera a cadência tradicional dos planos de carreira.

A mudança já começou, inclusive para você

O vídeo que motivou esta reflexão mostra um governo avançando para simplificação, compartilhamento de dados, conformidade cooperativa e fiscalização apoiada por sistemas. Mostra também uma iniciativa privada que ainda concentra parte relevante de seus atrasos em rotinas internas, documentos, integrações e decisões. Essa distância dificilmente será resolvida com a simples aquisição de software.

A inteligência artificial pode devolver tempo antes consumido pela burocracia. O destino desse tempo dependerá das escolhas humanas. Ele pode ser absorvido por mais reuniões, mais controles e novas versões das antigas tarefas. Também pode ser investido em análise, relacionamento, inovação, prevenção de riscos e construção de operações melhores.

Por isso, a pergunta ‘por que você não muda?’ não pretende culpabilizar quem enfrenta incerteza. Ela cobra honestidade. O que impede sua evolução hoje: falta de acesso, falta de clareza, medo de perder relevância, apego ao domínio técnico anterior ou a conveniência de esperar que alguém decida primeiro? Cada resposta exige uma ação diferente. Nenhuma delas se resolve com imobilidade.

O novo Comex será operado por sistemas inteligentes e processos fluidos, e liderado por profissionais capazes de aprender, articular pessoas e responder pelas decisões. Quem tratar essa mudança como agenda humana poderá construir o setor. Quem defender o modo antigo pode descobrir, tarde demais, que a função mudou antes de sua disposição para mudar.

(*)  Helenice Sá Silva Lima – Chief Marketing Officer da eComex

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