Da Redação
Brasília – Em plena campanha política visando as eleições presidenciais de outubro próximo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou no último dia 30 em Assunção, que o Mercosul quer negociar um acordo comercial com a China. A declaração foi dada durante a cúpula do bloco, realizada na capital paraguaia. No mundo real, especialistas em comércio exterior consultados pelo Comexdobrasil.com divergem do presidente e veem grandes entraves a serem superados antes de o Mercosul, e o Brasil em especial, poder vir a cogitar da assinatura de um acordo de livre comércio com a segunda maior potência econômica do planeta.
O presidente Lula da Silva tem defendido uma aproximação com a China, sobretudo em meio às tensões comerciais com os Estados Unidos. Na cúpula do G7, realizada no início de junho na França, o mandatário brasileiro disse que o país asiático ocupou um espaço que estava vazio e que “os Estados Unidos não podem se queixar que a China está ocupando um espaço {no mercado brasileiro e do Mercosul} se ele estava vazio”.
Na opinião de José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB) é praticamente inviável, ou mesmo impossível o Brasil cogitar a assinatura de um acordo entre o Mercosul e a China nos curto e médio prazos.
O executivo da AEB destaca que “todos sabemos que temos um custo Brasil bastante elevado, com esse custo, vamos seguir exportando basicamente commodities e não produtos manufaturados para o exigente e disputado mercado chinês”. Castro afirma ainda que “se fizer o dever de casa, reduzindo os custos de produção, implementando reformas como a tributária e outras mais, futuramente poderá vir a pensar num acordo dessa magnitude. Por enquanto não existem condições para isso”.
Especialista vê acordo apenas no longo prazo
Por sua vez, Jackson Campos, especialista em Comércio Exterior, afirma que um acordo dessa magnitude envolve riscos importantes: “a elevada competitividade da indústria chinesa pode aumentar a pressão sobre alguns setores industriais do Mercosul, exigindo negociações cuidadosas, cronogramas graduais de abertura e mecanismos de proteção para segmentos mais sensíveis”.
Campos reforça que “esse é um acordo factível, mas apenas no longo prazo”. E reforça: “um tratado comercial entre Mercosul e China envolve negociações complexas e exige consenso entre todos os países do bloco, então dificilmente seria concluído rapidamente. Ainda assim, faz sentido dentro do atual cenário de reorganização do comércio global, em que os países buscam diversificar mercados e reduzir vulnerabilidades”.
Ao mesmo tempo em que aponta grandes obstáculos no caminho das negociações e de uma hipotética assinatura de um acordo comercial com os chineses, Jackson Campos vislumbra ganhos para o Brasil quando e se esse tratado vier a ser firmado: “os principais ganhos para o Brasil estariam na ampliação do acesso ao mercado chinês, na atração de investimentos em infraestrutura, logística e tecnologia e na criação de um ambiente mais previsível para o comércio. Também existe potencial para ampliar a exportação de produtos de maior valor agregado, mas isso dependerá da competitividade da indústria brasileira. O acordo abriria portas, mas não muda sozinho a composição da pauta exportadora, hoje concentrada em commodities”.
Castro critica ausência de uma política comercial
Com uma postura crítica e fundamentada, José Augusto de Castro lembra que “cada vez que o presidente vai ao exterior, ele lança uma proposta de acordo comercial com um componente político. E dessa vez não foi diferente”.
Castro destaca que “nós não temos uma política comercial. Temos uma política segmentada por países. Cada país recebe {do Brasil} uma proposta de acordo comercial e é claro que esse acordo não vai poder funcionar porque não foi feito para o mundo, mas para um país especificamente, e nós queremos que esse acordo se aplique. O Brasil tem muitas dificuldades em firmar e viabilizar acordos. Acordos nós sabemos firmar, viabilizá-los é outra coisa, porque temos muitas dificuldades em fazer com que os detalhes colocados nos acordos sejam de fato aplicados”.
Ao contrário do Chile e do México, que já firmaram mais de 40 acordos comerciais, Castro afirma que “o Brasil tem pouquíssimos desses acordos. Pouquíssimos em quantidade e em qualidade. Temos um acordo com a Palestina, que é contabilizado como acordo comercial, mas é um acordo político. O que justifica um acordo com a Palestina? Chilenos e mexicanos têm acordos de fato, inseridos no dia a dia deles, diferentemente dos nossos acordos, desvinculados do nosso cotidiano”.
Uma visão pragmática do hipotético acordo
CEO do LIDE China, José Ricardo dos Santos Luz Júnior tem uma visão mais pragmática e menos apaixonada sobre esse acordo que por enquanto não passa de uma especulação. Para ele, “uma vez consentido e debatido entre os integrantes do Mercosul, esse acordo entre o Mercosul e a China tende, claro, a intensificar as relações desses países com a China. Por um lado, a gente tem os pontos de atenção ou de apreensão de alguns países, especialmente no caso da indústria e dos bens de consumo, se os integrantes do Mercosul vão ficar mais dependentes da China e como está esse processo de industrialização em cada país”
Profundo conhecedor das relações sino-brasileiras, o executivo vê uma identificação entre o processo de neoindustrialização brasileira, baseado na sustentabilidade e na inovação, com o megaprojeto chinês Nova Rota da Seda, em decorrência do incremento das relações bilaterais em inovação, especialmente em Inteligência Artificial, indústria 5.0, que é a IA mais a Inteligência das Coisas (IoT na sigla em inglês). Ele menciona especificamente a revolução ligada à inovação em saúde, materializada pelo acordo entre os governos brasileiro e chinês para a construção de dum hospital inteligente no estado de São Paulo.
O influente diretor do LIDE China destaca que no ano passado, a corrente de comércio (exportação+importação) Brasil-China totalizou a cifra recorde de US$ 171 bilhões e que a tendência é aumentar esses números: “não podemos nos esquecer de que o Brasil tem a segurança alimentar de que a China precisa. Segurança alimentar porque os nossos alimentos além de serem rastreáveis e frutos de um processo sustentável. Além disso, oferecemos à China segurança mineral, porque temos as terras raras, os minérios indispensáveis à produção dos chips, baterias e vos veículos elétricos chineses. Além disso, temos a segurança energética. Nossa matriz energética é uma matriz verde e por isso temos visto cada vez mais crescerem os investimentos chineses na área da energia solar e eólica no Brasil. Há um receio da indústria que eventuais integrantes do Mercosul fiquem mais dependentes da China, mas, por outro lado, é mais um leque {de opções} que se abre”.
Ele reforça a argumentação apresentada pelo presidente da AEB em relação à necessidade de o Brasil “fazer o dever de casa” e reitera que “se tivermos um discurso, se fizermos o dever de casa, nós e os demais integrantes do Mercosul em conjunto com o Brasil, conseguiremos apresentar à China quais são nossos interesses. A nossa grande dificuldade não é {de realizar acordos comerciais}, mas sim de provar quais são os nossos interesses na relação com a China e seguir adiante com essa aproximação”.







