O Brasil entre Washington e Pequim

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Allan Augusto Gallo Antonio (*)

A presença econômica chinesa no Brasil deixou de ser periférica para ocupar posição estratégica em setores como energia, petróleo, portos, logística e infraestrutura. Em muitos casos, esses investimentos são vistos apenas como sinais positivos de crescimento, mas quando áreas essenciais passam a depender fortemente de capital, tecnologia ou infraestrutura controlados por agentes estrangeiros, surge uma discussão inevitável sobre soberania nacional.

O setor energético ilustra essa transformação. A estatal chinesa State Grid, maior concessionária de energia do mundo, controla a CPFL Energia desde 2017 e opera ativos ligados à Usina de Belo Monte. Recentemente, a empresa declarou interesse em ampliar investimentos no Brasil em redes inteligentes, energias renováveis e infraestrutura para veículos elétricos.

De modo semelhante, a China Merchants Port Holdings adquiriu 90% do Terminal de Contêineres de Paranaguá, estratégico para o escoamento do agronegócio brasileiro. No comunicado oficial da operação, a companhia afirmou que a entrada no Brasil era “crucial para a expansão global” de sua rede logística.

A aproximação também avançou no setor energético e financeiro quando a Petrobras assinou memorandos de entendimento com empresas chinesas para cooperação em petróleo, gás, refino, hidrogênio e infraestrutura, com participação do Bank of China e do China Development Bank.

Parte do debate internacional interpreta esse avanço por meio da chamada “diplomacia da armadilha da dívida”, tese segundo a qual a China utilizaria investimentos para ampliar influência política. O tema, porém, costuma ser tratado com certo padrão duplo. Investimentos ocidentais normalmente são apresentados como globalização e integração econômica, enquanto a presença chinesa frequentemente é vista apenas sob a ótica da ameaça estratégica. Ainda assim, independentemente da origem do capital, dependência econômica prolongada inevitavelmente produz influência política.

O verdadeiro desafio brasileiro talvez não seja escolher entre Washington e Pequim, mas evitar dependência excessiva de ambos. No século da Realpolitik, soberania também significa controlar infraestrutura, logística e fluxos financeiros estratégicos.

Em um mundo marcado pela disputa entre grandes potências, países que não formulam estratégia acabam se tornando parte da estratégia dos outros.

(*) Allan Augusto Gallo Antonio, professor de Economia na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Pesquisador do Centro Mackenzie de Liberdade Econômica (MackLiber)

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