O conflito no Irã como novo atoleiro para os EUA no Oriente Médio

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Fernanda Brandão (*)

O envolvimento recente dos Estados Unidos no Oriente Médio tem sido marcado pela dificuldade de realização dos interesses apresentados para o início de intervenções e ataques na região. No início dos anos 2000, a “Guerra ao Terror”, com a invasão do Iraque e do Afeganistão, drenaram recursos financeiros e humanos dos Estados Unidos e implicaram em uma longa presença de tropas americanas na região. A guerra foi responsável pelo aumento expressivo do endividamento público do país. Ao mesmo tempo, a perda de soldados numa guerra longa e que não entregou os objetivos esperados deixou na população americana uma rejeição ao envio de suas tropas para a região.

O conflito no Irã já tem se mostrado mais complexo do que o esperado pelo governo americano. O regime dos Aiatolás tem se mostrado resiliente e sua capacidade de manter o estreito de Ormuz fechado frente às ameaças do Presidente Trump revelam que provavelmente houve um erro de cálculo ao se pensar a estratégia para o conflito. A princípio, o presidente americano afirmou que esta seria uma incursão rápida e que haveria rápida capitulação do regime iraniano. Contudo, o conflito já tem mais de um mês e o estreito de Ormuz continua fechado pela Guarda Revolucionária Iraniana.

O conflito e o fechamento do estreito de Ormuz trazem impactos importantes sobre a economia global, sobretudo sobre o mercado de energia. Passam pelo estreito de Ormuz cerca de 20% do petróleo global, além de outros produtos químicos e minerais importantes para a produção de fertilizantes, por exemplo. Nas últimas semanas, o preço do barril do petróleo tem flutuado de acordo com as perspectivas de manutenção do fechamento do estreito. O aumento do preço do petróleo tem impactos sobre o comércio internacional com aumento do frete causando elevação de preços generalizada sobre produtos importados.

Além da crise energética causada pela falta de abastecimento em decorrência do fechamento do estreito de Ormuz, a escassez de fertilizantes resultante do fechamento do estreito levante preocupações sobre a segurança alimentar uma vez que afeta a potencialidade de plantio durante a primavera no hemisfério norte e no hemisfério sul no segundo semestre deste ano.

As Nações Unidas têm trabalhado para criar uma iniciativa diplomática que garanta a livre passagem de navios carregados de fertilizantes e produtos químicos utilizados na produção de fertilizantes. O conflito também tem impacto sobre os gastos públicos americanos. A previsão do orçamento para o setor de defesa é de que ultrapasse US$ 1 trilhão de dólares, um aumento de 13% em relação ao orçamento previamente determinado. O uso de mísseis, aeronaves e porta-aviões no combate no Irã
tem um custo elevado.

O governo americano tem feito sucessivas ameaças para que haja a abertura do estreito, inclusive ameaçando a “destruição de uma civilização inteira em uma noite” caso as demandas americanas não fossem atendidas. Nesse tempo, as ameaças americanas em atacar infraestrutura importante de energia no Irã tem sido respondida pelo governo iraniano convocando sua população a criar escudos humanos em torno dessas instalações. Apesar do fim do prazo estabelecido, o governo americano estendeu mais uma vez por duas semanas a data supostamente final para a abertura do estreito.

Segundo Trump, há um cessar-fogo em vigor para continuidade das negociações com o Irã. Contudo, a continuidade dos ataques israelenses sobre o Líbano tem sido interpretada pelo Irã como uma violação do cessar-fogo e mantém o estreito de Ormuz fechado.

No meio tempo, o Paquistão tem se mostrado um ator mediador e no fim de semana foram realizadas conversas em Islamabad com o objetivo de que um acordo entre as partes fosse alcançado. O Irã tem como suas principais demandas a suspensão dos ataques ao Líbano, o descongelamento dos recursos iranianos, e demanda que o acordo final contemple pagamentos para a reconstrução do país, reconhecimento de sua soberania sobre o estreito, seu direito de enriquecer urânio seja garantido e o fim das agressões militares. Esses termos contradizem os interesses americanos no país que envolvem o fim total do programa de enriquecimento nuclear do país.

A não disposição das partes em ceder em suas demandas resultou na declaração por parte dos Estados Unidos de que as negociações realizadas no Paquistão não foram bem-sucedidas, levando Donald Trump a declarar um fechamento do Estreito de Ormuz para navios com destino ou de origem de portos iranianos. A manutenção da passagem de navios oriundos do Irã carregados de petróleo é um dos principais meios de sobrevivência econômica do regime iraniano. Ao mesmo tempo, a ação americana pode ser interpretada como ato de guerra por Teerã e contribuir para o escalonamento do conflito.

A resiliência do Irã diante do conflito coloca o presidente dos Estados Unidos em uma situação complexa. Domesticamente, sua popularidade tem sido negativamente afetada pelo envolvimento em um conflito que não é consenso entre a sua população. Para a maior parte da população americana, o envolvimento no conflito com o Irã atende mais aos interesses israelenses do que aos interesses americanos. Essa insatisfação pode se refletir nas eleições de meio de mandato que devem acontecer em novembro levando à perda da maioria republicana nas casas do Congresso americano.

Além disso, a imposição de ultimatos e a prorrogação desses prazos no último minuto podem acabar enfraquecendo a percepção internacional sobre a disposição do presidente americano em cumprir sua palavra. A elevação do tom contra o Irã cria a expectativa de que ou o governo iraniano terá que ceder e aceitar os termos impostos pelos EUA ou haverá uso mais intenso da força levando ao escalonamento do conflito. Ao não
cumprir suas ameaças, Trump deixa a impressão de que os Estados Unidos não cumprem suas promessas.

Assim, o conflito no Irã pode se tornar outro atoleiro, no sentido de que os Estados Unidos se envolveram em um conflito e não conseguiram alcançar seus interesses políticos, drenando recursos econômicos e militares do país. O envolvimento em um conflito sem perspectiva de fim no Oriente Médio também contraria as críticas feitas por Donald Trump a seus antecessores por terem se envolvido em conflitos na região. O contexto marcado pelo aumento dos gastos públicos e a inflação resultante do fechamento do Estreito de Ormuz pode dificultar o cenário para as eleições de meio termo e para a eleição de um sucessor ligado ao trumpismo.

(*) Fernanda Brandão, coordenadora do curso de Relações Internacionais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio

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