Taxa de juros, inflação e atividade econômica no Brasil: uma decisão difícil

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Pedro Raffy (*)

Nesta quarta-feira (18), o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) se reunirá mais uma vez para decidir sobre a taxa básica de juros da economia (Taxa Selic). Desde junho de 2025, a taxa alcançou o patamar de 15%, mantido até os dias atuais. O motivo da manutenção da taxa em patamar elevado é justificável pela forma como deve ser conduzida a política monetária no contexto do regime de metas de inflação, implementado no Brasil em 1999.

Segundo o funcionamento do regime monetário, é obrigação do BC buscar o alcance da meta de inflação, atualmente de 3% com banda superior e inferior de 1,5%, por meio do uso dos instrumentos de política monetária, com a taxa de juros sendo o instrumento principal. Nesse contexto, o cenário atual reflete o dilema da política monetária: alcançar a estabilidade dos preços e o alcance da meta de inflação sem a imposição de custos excessivos à atividade econômica.

Em fevereiro deste ano, a inflação acumulada de 12 meses foi de 3,81%, ante um pico inflacionário de 12,13% ocorrido em abril de 2022. Em 2023 houve uma queda significativa dos preços e o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) voltou a ficar no patamar inferior a 4 % para o acumulado de 12 meses.

A partir de 2024, entretanto, o núcleo da inflação, que atingiu o vale, inverteu o comportamento e começou a subir, o que obrigou o Banco Central a iniciar um novo ciclo altista de taxa de juros, que fez a Selic aumentar de 10,5% ao ano para o atual patamar de 15%.

A evolução dos indicadores econômicos confirma o êxito da política monetária no controle e estabilidade dos preços. A queda da inflação acumulada de 12 meses ocorrida em 2025 e início de 2026, bem como a análise de vários períodos em que a autoridade financeira elevou a taxa de juros, mostram que a política monetária contracionista resulta em inflação menor e nível de preços estáveis.

As expectativas apontavam que o início de um provável longo ciclo de queda na taxa de juros iniciaria em março, justamente na próxima reunião do Copom, com uma redução inicial da Selic para 14,5%. Entretanto, o irrompimento de um conflito em um importante país produtor de petróleo alterou o cenário prospectivo para os preços futuros, especialmente em decorrência da forte alta dos preços do petróleo já observada no presente. Ao que tudo indica, não há mais espaço de um corte de 0,5 ponto percentual na Taxa Selic, e a questão atual é se o corte será de 0,25 pontos percentuais ou se haverá corte de fato.

Em qualquer caso, o cenário atual mostra os desafios para a política monetária e para a economia. Com uma inflação acumulada em 12 meses de 3,81%, uma taxa de juros no patamar de 15% reflete uma taxa de juros real elevada para a economia, com impactos na atividade econômica. Paralelamente, a economia brasileira vem apresentando um cenário de falências bancárias e episódios relevantes de pedidos de recuperação judicial.

Sem querer estabelecer relações de causa e consequência, falências bancárias e recuperações judiciais também costumam ocorrer em períodos de taxas de juros elevadas. É claro que em muitos episódios recentes, há inúmeros outros determinantes, mas a taxa de juros elevada encarece o custo do crédito para empresas e consumidores, reduzindo a atividade econômica.

É inequívoco afirmar que, para conter os preços, é preciso “resfriar” a atividade econômica, mas a pergunta a ser destacada é: Qual é o patamar de juros que permite o controle e a manutenção da estabilidade dos preços sem comprometer, além do mínimo necessário, a atividade econômica?

A resposta para a pergunta não é simples. No contexto do regime de metas de inflação, o objetivo da política monetária é o alcance da meta e é inegável que o Banco Central do Brasil vem conseguindo cumprir com o objetivo. Em outros regimes de política monetária, como nos Estados Unidos, não há um sistema formal de metas de inflação e o FED (Banco Central dos EUA) toma decisões considerando tanto o nível de atividade econômica quanto o nível dos preços. No Brasil, o objetivo da política monetária é o alcance da meta, ainda que o Banco Central considere também outras variáveis nas decisões de política monetária.

Assim, em um cenário em que a inflação no Brasil diminuiu consideravelmente e já se encontra na meta (considerando o intervalo de 1,5%), a decisão sobre a taxa de juros é uma tarefa desafiadora e difícil. Difícil, pois o atual patamar resulta em uma taxa de juros real elevada, que impacta inclusive o problema fiscal brasileiro (outro ponto que terá que ser observado com cuidado no futuro próximo), além de afetar a atividade econômica, com reflexos negativos para o setor empresarial, mas que também preocupa pela incerteza que o atual conflito trará para os preços do petróleo no futuro e para os níveis de inflação.

Uma redução mais acentuada dos juros poderá fazer com que a inflação ultrapasse novamente a meta e poderá exigir, em breve, um novo ciclo altista. Já uma redução menos pronunciada pode comprometer, por um período maior do que o necessário, a atividade econômica.

A despeito da decisão difícil e desafiadora, espera-se que o melhor caminho seja seguido, com benefícios futuros para a economia brasileira em termos de estabilidade de preços e crescimento econômico.

(*) Pedro Raffy Vartanian é Professor Doutor do Mestrado Profissional em Economia e Mercados e da Graduação em Economia da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

 

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