Por que os brasileiros preferem bancos digitais?

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Marlon Tseng (*)

Nos últimos anos, os bancos digitais deixaram de ser uma segunda opção e passaram a ocupar o centro das escolhas financeiras dos brasileiros. Mais do que uma tendência tecnológica, essa preferência reflete uma mudança de comportamento acelerada pela pandemia de Covid-19, quando o fechamento das agências físicas obrigou milhões de pessoas a experimentar o atendimento pelo celular. O que começou como adaptação emergencial rapidamente se transformou em hábito. A necessidade deu lugar à conveniência: sem filas, sem deslocamentos e sem burocracia, o banco passou a caber na palma da mão, disponível a qualquer hora e em poucos toques.

Uma pesquisa do instituto Ipsos-Ipec mostra que esse comportamento é ainda mais intenso entre jovens de 16 a 24 anos: 31% possuem conta apenas em bancos digitais, 14% mantêm relacionamento exclusivo com instituições tradicionais e 52% utilizam ambos os modelos. Os números revelam que, para essa geração, o digital não é uma alternativa, mas ponto de partida.

O Brasil, historicamente, sempre teve uma boa parte da população sub-bancarizada ou até mesmo desbancarizada. Com tarifas altíssimas, exigência de comprovação de renda e complexidade para abrir uma conta, o acesso ao banco era limitado. Porém essa realidade vem mudando de forma drástica e acelerada. Com apenas seu CPF e seu celular, abrir uma conta numa instituição financeira tornou-se algo mais democrático e acessível. O avanço do Pix também facilitou os meios de pagamento e consolidou as ferramentas digitais financeiras, tornando-as as principais entre os brasileiros.

A acessibilidade também se evidencia na liberação de crédito. Enquanto bancos tradicionais ainda operam com análises mais longas e processos burocráticos para financiamento, consórcios, cartões e empréstimos, as fintechs apostam em tecnologia, cruzamento de dados e inteligência artificial para oferecer respostas quase imediatas. Esse modelo dialoga diretamente com a realidade brasileira, marcada pela informalidade e pela necessidade recorrente de crédito para organizar o orçamento, lidar com imprevistos ou investir no próprio sustento.

Os bancos digitais oferecem controle em tempo real, notificações a cada compra, gestão completa pelo aplicativo e bloqueio imediato do cartão, recursos que colocam o cliente no comando das próprias finanças. Essa autonomia gera sensação de poder e transparência, já que o usuário deixa de depender do gerente e passa a resolver tudo de forma rápida e autônoma.

Além disso, mesmo quando a diferença de custo não é tão expressiva, a comunicação de benefícios como zero anuidade, ausência de taxa de manutenção e ofertas de cashback fortalece a percepção de uma relação mais justa. Em um país historicamente marcado pela desconfiança em relação às tarifas bancárias, essa proposta reforça a ideia de simplicidade, clareza e proximidade com o consumidor.

Para muitos jovens, abrir a primeira conta bancária simboliza a entrada na vida adulta. Nesse cenário, as fintechs se apresentam como marcas modernas, acessíveis e alinhadas ao universo digital dessa geração, criando uma conexão que vai além da funcionalidade e alcança o campo emocional.

A pesquisa Global Overview Report, da DataReportal, aponta que o Brasil é o segundo país do mundo com mais tempo de exposição a telas. O brasileiro passa, em média, mais horas no celular do que diante da televisão, o que ajuda a explicar a força dos bancos digitais. Quando a instituição está dentro do smartphone, ela passa a fazer parte da rotina daquele indivíduo. Na cama, na fila do mercado ou no intervalo do trabalho, é possível realizar transferências, pagar contas ou solicitar crédito em poucos minutos, sem depender de horário comercial ou presença física.

Quando mais da metade da população passa a se reconhecer como cliente de banco digital, o movimento deixa de ser tendência e se consolida como novo padrão de comportamento. De acordo com pesquisa da Locomotiva encomendada pela empresa de pagamentos 99Pay, 55% dos brasileiros se identificam como clientes de bancos digitais ou fintechs. O dado revela uma mudança estrutural no sistema financeiro do país: o modelo tradicional já não é a escolha automática, mas uma alternativa em um mercado cada vez mais guiado pela tecnologia, autonomia e praticidade.

(*) Marlon Tseng, CEO da Pagsmile

 

 

 

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