Países aliam política à defesa comercial e nova onda de protecionismo se espalha pelo mundo, analisa especialista

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Especialista em comércio exterior Jackson Campos aponta para uso político de medidas de proteção comercial e como exportadores precisam diversificar clientes para mitigar impactos

Da Redação

Brasília – A defesa comercial deixou de ser um instrumento técnico restrito do comércio exterior e se tornou uma ferramenta geopolítica. Na teoria, instrumentos mais usados, como o antidumping, compensatórios e salvaguardas, partem de uma lógica simples que é proteger setores domésticos de práticas de comércio que um país julga injustas ou de ondas de importação que ameacem a produção local. Na prática política, porém, as medidas viram instrumentos de barganha.

Países elevam tarifas ou abrem investigações quando desejam dar fôlego a uma indústria sensível por razões próprias ou quando precisam responder a choques externos. A OMC (Organização Mundial do Comércio) calculou que em outubro de 2024 todas as restrições de importação em vigor somavam impacto sobre US$ 2,942 bilhões em bens, o que representa 11,8% de tudo o que o mundo importa.

Em 2025 esse dado pode ser ainda maior, já que cada vez mais medidas protecionistas estão sendo adotadas e causam transtornos internos e externos. Jackson Campos, especialista em comércio exterior, chama atenção para o caráter político dessas decisões.

“Medidas como o ‘tarifaço’ têm efeito imediato sobre preços e cadeias, mas a retirada rápida também reflete pressão do mercado interno e cálculo político. É um jogo de xadrez e os movimentos dos países dependem tanto da diplomacia quanto de economia. Governos usam defesas comerciais para ganhar tempo, proteger produtores enquanto se busca ajuste estrutural ou renegociação internacional, mas pagam o preço em termos de competição e custo ao consumidor.”, analisa Campos.

OMC fragilizada contribui para medidas de proteção extrema

O enfraquecimento do poder de interferência e de conciliação da OMC fez com que cada vez mais países estabelecidos no comex começassem a tomar medidas de proteção extremas sem consequências graves, parando em longos processos litigiosos. Essas grandes economias frequentemente articulam medidas unilaterais com estratégia externa, barrando importações para proteger um setor e, simultaneamente, sinalizar prioridades geopolíticas. 

Para empresas e operadores de comércio, as implicações são operacionais e estratégicas. Mais que tarifas, o risco real vem de planejamentos logísticos e contratos internacionais que passam a incorporar cenários de instabilidade de tarifas repentinas. Campos observa que, diante dessa volatilidade, importadores e exportadores precisam reforçar a diversificação de mercados

“Quem depende de uma única rota ou fornecedor fica refém de decisões que não controlam e vão sofrer quando medidas mais extremas forem tomadas. Por isso, planejamento e alternativas comerciais são a melhor defesa privada, porque permitem que os exportadores sintam menos o impacto de mudanças como tarifaço, porque continuam tendo onde vender seus produtos, e mudanças de legislações”, explica o especialista.

Quando tarifas passam a ser empregadas de forma recorrente com objetivos de curto prazo ou como forma de pressão geopolítica, a previsibilidade do comércio se deteriora, os custos das cadeias produtivas sobem e o risco de ciclos de retaliação se amplia, afetando preços internos e decisões de investimento. “As tarifas deve ser exceção e não regra, sobretudo em economias que buscam expansão de mercados e estabilidade regulatória. Quando vira prática sistemática de política econômica, corre-se o risco de sacrificar a competitividade e o desenvolvimento nacional em nome de um protecionismo de curto prazo. Não há mais como fechar as portas e viver sozinho, é preciso agir com muita assertividade e inteligência para não sair prejudicado nesse jogo político-econômico”, conclui Campos.

 

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