Daniel Guimarães Tedesco (*)
Todo mundo feliz vendo a Artemis II, que decolou no famoso dia da mentira levando quatro astronautas rumo à Lua, ou melhor, perto da Lua. Mas qualquer pessoa que conhece a história da NASA, agência espacial americana, vai notar um fato que a cobertura festiva preferiu não enfatizar, pois iria estragar a festa, com certeza. O escudo térmico da cápsula Orion é feito de um material projetado para se consumir de forma controlada na reentrada, quando a superfície externa ultrapassa 2.700 °C. No único teste em velocidade real em voo não tripulado de 2022, mais de cem pedaços racharam e se soltaram inteiros, arrancados pela pressão de gases presos no material porque a estrutura era densa demais para deixá-los escapar.
A NASA investigou durante dois anos, identificou o mecanismo, e em vez de trocar o escudo, que já estava integrado à nave, decidiu mudar a trajetória de reentrada para evitar as condições que produziram a falha. Até que é engenhoso, mas nunca foi testado em voo. O que preocupa não é a decisão técnica, mas o quanto ela se parece com decisões anteriores que terminaram em tragédia.
O ex-astronauta Charles Camarda, com 45 anos de NASA e 22 de pesquisa em proteção térmica, afirmou publicamente que a agência está repetindo o mesmo tipo de raciocínio que resultou na destruição da Challenger em 1986 e da Columbia em 2003. A socióloga Diane Vaughan viu esse padrão nos anos 1990: um problema é detectado e documentado, mas como os voos seguintes não terminam em catástrofe, a percepção de risco vai se ajustando, o inaceitável vira manejável, o manejável vira rotina, e a margem de segurança encolhe em silêncio até o dia em que não existe mais.
Os anéis de vedação do ônibus espacial se desgastavam havia nove anos quando a Challenger explodiu; pedaços de espuma atingiam o revestimento térmico em voo após voo quando a Columbia se desintegrou.
Infelizmente, o escudo da Artemis II se encaixa nesse molde. O defeito é conhecido, a correção foi na trajetória e não no escudo, e as simulações usadas para validar a nova rota pertencem à mesma família de modelos que não previu o problema. E o escudo sob os quatro astronautas foi fabricado com estrutura ainda mais densa que a do anterior, para facilitar uma inspeção de fábrica, o que significa que a característica responsável pela falha foi piorada, mas não corrigida.
Tudo isso em uma NASA que perdeu mais de 20% da força de trabalho, ficou quase um ano sem administrador confirmado, enfrenta um corte orçamentário de 24% e opera sob pressão para chegar à Lua antes da China. O detalhe mais chato de tudo isso é que a missão poderia ter voado sem tripulação, já que desde fevereiro existe uma Artemis III em órbita baixa para 2027, eliminando a necessidade de sobrevoo tripulado antes do pouso. Um voo não tripulado teria testado tudo sem risco, mas a NASA decidiu que não era necessário.
A missão provavelmente vai dar certo, e espero sinceramente que dê. Mas Danny Olivas, ex-astronauta que integrou a equipe de revisão e que apoia a decisão de voar, disse algo que não me sai da cabeça: “às vezes temos sorte, e quando temos sorte, trocamos isso por competência, e nos convencemos de que somos melhores do que somos”. É o tipo de frase que aparece nos relatórios pós-acidente da NASA. Espero que desta vez fique restrita a uma coluna de jornal.
(*) Daniel Guimarães Tedesco é Doutor em Física pela UERJ, Professor da Escola Superior de Educação, Humanidades e Línguas e do Programa de Pós-Graduação em Educação e Novas Tecnologias no Centro Universitário Internacional UNINTER.







