Exportadores brasileiros veem com apreensão dependência de EUA e China e especialista aponta cinco estratégias para reduzir riscos

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Concentração em poucos mercados amplia vulnerabilidade a tarifas e crises comerciais, enquanto diversificação ganha espaço como caminho para proteger receita e ampliar competitividade

Da Redação

Brasília – A concentração das exportações brasileiras em poucos destinos voltou ao centro das discussões do setor produtivo. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) indicam que China e Estados Unidos concentram cerca de 40% das exportações do país, o que amplia a exposição a oscilações políticas, tarifárias e cambiais.

Para Murillo Oliveira, especialista em investimentos e estruturação financeira internacional e head de tesouraria da Saygo, a dependência desses mercados deixou de ser apenas uma característica do comércio exterior brasileiro e passou a representar um risco direto à previsibilidade das empresas.

“A dependência excessiva de poucos mercados expõe as empresas a decisões que estão fora do controle delas, como tarifas, embargos ou mudanças regulatórias. Diversificar não é apenas crescer, é proteger receita”, afirma.

Movimentos recentes no comércio global reforçam essa percepção. A adoção de tarifas entre grandes economias, além de restrições sanitárias e ajustes em cadeias de suprimento, tem redirecionado fluxos comerciais e aberto janelas pontuais para novos fornecedores. Ao mesmo tempo, aumenta a instabilidade para quem opera de forma concentrada.

Busca de mercados fora dos polos tradicionais

Na prática, empresas brasileiras já começam a direcionar esforços para regiões como Sudeste Asiático, Oriente Médio e países europeus fora dos polos tradicionais. A mudança exige adaptação, mas amplia o potencial de crescimento. “Existe demanda global fora do eixo tradicional, mas ela exige preparo técnico, inteligência comercial e leitura de risco. Não é um movimento automático”, diz.

A diversificação também impacta diretamente a gestão financeira. Operar com diferentes moedas e ambientes regulatórios aumenta a complexidade, mas reduz a dependência de um único ciclo econômico. “Quem atua em mais de um mercado consegue equilibrar melhor receita e risco. Isso traz mais estabilidade no médio prazo”, explica.

Apesar do avanço do tema, a expansão internacional ainda esbarra em desafios operacionais. Falta de conhecimento sobre novos mercados, entraves logísticos e ausência de estrutura interna estão entre os principais obstáculos. “Muitas empresas entendem o risco de concentração, mas não têm clareza de como executar essa mudança. Sem estrutura, a diversificação pode gerar mais problema do que solução”, afirma.

A entrada em novos destinos exige planejamento e apoio técnico. Mais do que abrir canais comerciais, é necessário adaptar produto, atender exigências regulatórias e estruturar a operação financeira.

Nesse processo, o suporte especializado tende a reduzir erros e acelerar a tomada de decisão. “Não é só vender para outro país. É preciso entender a legislação, a logística e a dinâmica de cada mercado. Quando isso é feito com método, o ganho de competitividade é relevante”, diz.

Ao mesmo tempo, o avanço precisa ser criterioso. Expandir sem análise pode comprometer margem e operação. “Diversificar não significa atuar em qualquer mercado. É escolher destinos com aderência ao produto e capacidade operacional real”, alerta.

O especialista aponta cinco estratégias para reduzir riscos na exportação

A diversificação de destinos exige disciplina e execução estruturada. Especialistas apontam caminhos práticos para empresas que querem reduzir a dependência de poucos mercados e ganhar previsibilidade:

  • Mapear mercados com demanda aderente
    Antes de expandir, é essencial identificar países com potencial real para o produto, considerando consumo, concorrência e barreiras de entrada.
  • Estruturar gestão cambial e financeira
    Operar em múltiplas moedas exige controle. Estratégias como hedge e contas internacionais ajudam a proteger margens e evitar perdas.
  • Adequar produto e certificações
    Cada mercado possui exigências específicas. Ajustes técnicos e regulatórios evitam bloqueios e aumentam a competitividade.
  • Investir em logística e parceiros locais
    Eficiência logística impacta diretamente custo e prazo. Ter operadores confiáveis reduz riscos operacionais.
  • Contar com assessoria especializada
    Empresas com suporte técnico estruturam melhor a entrada em novos mercados e reduzem erros estratégicos.

Para Murillo Oliveira, a vantagem está na antecipação. “As empresas que começarem a diversificar agora tendem a ganhar espaço enquanto o comércio global se reorganiza. Esperar estabilidade pode significar perder competitividade”, afirma.

A reorganização das cadeias globais e o aumento das tensões comerciais indicam que a dependência de poucos mercados deve se tornar cada vez mais arriscada. Nesse ambiente, diversificar destinos deixa de ser apenas uma estratégia de expansão e passa a ser um fator determinante para a sustentabilidade das exportações brasileiras.

 

 

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