Foto Datamar/Divulgação

DataSmart Shipping 2026 destaca dados, ciência e decisões como pilares da descarbonização no setor marítimo

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Da Redação (*)

Brasília – O segundo dia da DataSmart Shipping Conference 2026 aprofundou o debate sobre descarbonização no transporte marítimo, colocando os dados e a ciência no centro das decisões estratégicas do setor. A programação, liderada pelo DatamarLab, foi estruturada em dois grandes momentos — uma sessão técnica e uma discussão de mercado — que, juntas, mostraram como a inteligência aplicada pode transformar a forma como o comércio exterior mede, gerencia e responde à sua pegada ambiental.

Painel DatamarLab: Pegada Ambiental no Comércio Exterior

A primeira sessão trouxe uma abordagem técnica e inovadora sobre o uso de dados operacionais reais para medir e modelar emissões no transporte marítimo. O professor Walter Teixeira Lima Junior, Ph.d, Professor e Pesquisador da UNIFESP e Cientista Chefe – DatamarLab apresentou uma visão provocadora ao afirmar que o grande desafio atual não está na falta de dados, mas na capacidade de identificar os “vetores estruturantes” dentro de um volume massivo de informações.

Durante sua apresentação, Walter destacou o desenvolvimento de um aplicativo baseado na base de dados da Datamar, que integra algoritmos de cálculo de distâncias marítimas, motores de emissões e metodologias científicas. A evolução desse trabalho — que começou com provas de conceito em um único navio — já avança para modelos preditivos com machine learning e para a construção de um “digital twin”, capaz de simular cenários operacionais com maior precisão, reduzir margens de erro e até individualizar a alocação de emissões por carga.

Complementando essa visão, Thiago Nobre Mascarenhas, Chefe de Dados e Arquitetura que atua no  DatamarLab e na Engineering Brasil apresentou a necessidade de substituir modelos tradicionais, baseados em estimativas agregadas, por uma abordagem bottom-up, construída a partir de dados reais e granulares. Ao considerar variáveis como tipo de motor, velocidade, condição do casco e características da carga, essa metodologia permite uma medição muito mais precisa das emissões, além de viabilizar modelos preditivos mais robustos. Para ele, o avanço da descarbonização depende diretamente da aproximação entre academia e indústria, garantindo que o conhecimento produzido seja efetivamente aplicado no setor.

A sessão contou também com a participação de Marcos Silva, M.Sc, CIO da Datamar, reforçando a importância de conectar o conhecimento técnico à aplicação prática no ambiente corporativo e de transformar pesquisa em soluções reais para o setor.

Painel DatamarLab: Discussão de Mercado sobre a Pegada Ambiental

Na segunda sessão, o foco saiu do campo técnico e avançou para a aplicação prática, reunindo executivos e especialistas para discutir como essas soluções podem ser implementadas no dia a dia da cadeia logística.

Walter Teixeira Lima Junior, Ph.d, Professor e Pesquisador da UNIFESP e Cientista Sênior – DatamarLab retomou a discussão trazendo uma reflexão crítica sobre o conceito de “inteligência artificial”, destacando que seu valor não está na tecnologia em si, mas na capacidade de gerar cognição e apoiar decisões. Ele também reforçou que a descarbonização é, acima de tudo, um desafio econômico e cultural, que exige mudanças estruturais na forma como o setor compartilha dados e colabora.

Thiago Nobre Mascarenhas, Chefe de Dados e Arquitetura, que atua no DatamarLab e na Engineering Brasil aprofundou o papel da IA como ferramenta essencial para lidar com decisões complexas e de alta carga cognitiva, como trade-offs entre velocidade, custo e emissões. Segundo ele, já existem dados extremamente granulares disponíveis — inclusive em nível de segundos nas operações portuárias — e a inteligência artificial é o que permite transformar esse volume massivo de informação em simulações, projeções e recomendações práticas para o negócio.

Do ponto de vista operacional, Jeferson Kalckmann Gilgen, Coordenador de Pricing e Planejamento Comercial do Porto Itapoá trouxe uma visão realista sobre a transição energética nos portos. Embora iniciativas como a eletrificação de equipamentos já representem avanços concretos, ele destacou que o setor ainda enfrenta desafios relevantes de custo e escala para a adoção de combustíveis alternativos. A evolução, segundo ele, dependerá de alinhamento econômico e pressão regulatória.

Cecílio Perez, Diretor Executivo do RCGI-USP Carbon Registry reforçou que a urgência da agenda ambiental já é impulsionada pelos impactos das mudanças climáticas, cada vez mais visíveis na sociedade. Ele destacou o papel crescente do escopo 3 — que envolve emissões indiretas ao longo da cadeia — e os desafios associados à sua mensuração, como a necessidade de dados confiáveis e o risco de distorções como o greenwashing. Nesse contexto, soluções baseadas em dados ganham relevância ao trazer transparência e rastreabilidade para o mercado.

Encerrando o painel, Marcos Silva, M.Sc, CIO da Datamar e Cristiano Kaehler, Gerente de Business Intelligence da Datamar destacaram o gap histórico entre academia e mercado e a necessidade de transformar conhecimento em aplicação prática. Cristiano chamou atenção para a jornada do próprio mercado diante da inovação — que passa do entusiasmo inicial à cautela e, por fim, ao desafio real de implementação — reforçando que o maior obstáculo atual não é tecnológico, mas de execução e gestão.

Painel Descarbonização no Shipping

O painel sobre descarbonização no shipping reuniu diferentes visões — acadêmica, regulatória e empresarial — para discutir os caminhos da transição energética no setor marítimo, evidenciando que o tema já se consolidou como uma das principais agendas estratégicas da indústria.

Na abertura, Andrew Lorimer, CEO da Datamar, destacou a relevância do debate ao lembrar que o transporte marítimo responde por cerca de 2,8% das emissões globais de gases de efeito estufa, reforçando a necessidade de avançar em transparência, mensuração e uso de dados para apoiar decisões mais sustentáveis. Ele também conectou o tema às iniciativas em inteligência artificial e ao crescente impacto do mercado de carbono, apontando que a complexidade técnica do assunto exige cada vez mais conhecimento aprofundado e integração entre diferentes áreas.

Momento de inflexão

Na sequência, Cristiane de Marsillac, CEO da Marsalgado Brasil, trouxe uma perspectiva histórica e estratégica, destacando que o setor vive um momento de inflexão semelhante a outras grandes transições tecnológicas, como a passagem da vela para o vapor. Segundo ela, a diferença agora é que a mudança é impulsionada não apenas por eficiência, mas também por pressões ambientais, regulatórias e sociais.

Cristiane enfatizou que a estratégia energética passa a ser um fator central de competitividade e que a regulação terá papel decisivo ao criar previsibilidade e viabilizar investimentos, especialmente em um contexto em que novas tecnologias ainda apresentam custos elevados. Nesse cenário, ela destacou o potencial do Brasil, com sua base consolidada de biocombustíveis, como uma vantagem competitiva relevante na nova economia de baixo carbono.

Complementando essa visão, o professor Tiago Lopes, Ph.D., cientista e professor do Research Centre for Greenhouse Gas Innovation (RCGI) da USP, trouxe uma análise técnica e pragmática sobre a transição energética, ressaltando que o principal fator de decisão no setor continua sendo o custo ao longo da vida útil dos ativos. Para ele, a descarbonização não ocorrerá de forma espontânea, mas será impulsionada por regulações e pela pressão crescente da sociedade diante dos impactos das mudanças climáticas. Tiago destacou ainda que não haverá uma solução única: diferentes tecnologias deverão coexistir, com a eletrificação avançando em aplicações mais leves, enquanto alternativas como o hidrogênio e outros combustíveis de alta densidade energética ganham espaço no transporte pesado de longa distância.

Já Luís Resano, diretor-executivo da Associação Brasileira dos Armadores de Cabotagem (Abac), trouxe a discussão para a realidade operacional da cabotagem brasileira, destacando que, na prática, a escolha de combustíveis ainda depende de fatores como custo, disponibilidade e infraestrutura. Ele reforçou que, apesar de ser o modal mais eficiente do ponto de vista ambiental, a cabotagem ainda tem baixa participação na matriz logística nacional, o que representa uma oportunidade imediata de redução de emissões por meio de sua expansão.

Resano apontou o biodiesel como uma solução viável no curto prazo, justamente por sua compatibilidade com a infraestrutura existente, mas alertou para a necessidade de políticas públicas claras e investimentos consistentes que garantam previsibilidade ao setor.

Descarbonização gradual e multifacetada

Na mesma linha, Luiza Bublitz, presidente da Aliança Navegação e Logística, reforçou que a descarbonização deixou de ser apenas uma pauta ambiental para se tornar uma decisão estratégica de negócio. Ela destacou os desafios de uma indústria intensiva em capital e baseada em decisões de longo prazo, ressaltando que a transição exige investimentos, inovação e coragem para avançar mesmo diante de incertezas.

Entre as iniciativas já em curso, citou o uso de tecnologias como o shore power (AMP), além de melhorias operacionais para aumentar a eficiência energética. Luiza também enfatizou o papel da cabotagem como solução sustentável, capaz de reduzir significativamente o número de caminhões nas estradas, mas destacou que sua expansão depende de avanços na multimodalidade e de uma mudança cultural no país.

De forma geral, o painel evidenciou que a descarbonização no shipping será um processo gradual, multifacetado e dependente de colaboração entre todos os elos da cadeia. Mais do que uma tendência, o tema se consolida como um elemento central para a competitividade do setor, exigindo integração entre tecnologia, regulação, infraestrutura e estratégia empresarial.

Ao final do segundo dia, ficou evidente que o setor marítimo já dispõe de dados, tecnologia e conhecimento suficientes para avançar na agenda de descarbonização. O grande desafio agora está em integrar esses elementos, promover colaboração entre os diferentes atores da cadeia e, principalmente, transformar informação em decisões concretas que gerem impacto real.

(*) Com informações da Datamar

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