Luis Muller -fundador da Asia Source Foto: Divulgação

China, fábrica do mundo, atrai cada vez mais a atenção dos pequenos e médios importadores brasileiros

Compartilhe:

Da Redação

Brasília – A cada mês, a Ásia Source recebe entre 2.500 e 3.000 cadastros de brasileiros interessados em obter mais informações sobre como importar da China, um número que não para de crescer. Esse interesse identificado pela empresa que fornece consultoria e gestão de importação, é um forte indício de que a compra de bens chineses deve seguir em alta em 2026 e contribuir para o aumento da corrente de comércio entre o Brasil e a China e a redução do gigantesco superávit comercial que o Brasil acumula no intercâmbio comercial com os chineses nos últimos anos.

Na visão de Luis Muller, fundador e principal executivo da empresa, 2026 será um ano de crescimento das importações: “por ser um ano eleitoral, o governo vai injetar dinheiro na economia, baixar a taxa de juros, facilitar o consumo e dar mais crédito para as pessoas. Será um ano de consumo e nesse contexto acredito que teremos uma alta das importações”.

Fundada em 2019 por Luis Muller, com a proposta de estruturar a importação como um projeto técnico e acessível, a Ásia Source faz parte do Grupo 300 Franchising e atua conectando empresas brasileiras e fornecedores globais -da China em especial-, por meio de análise e gestão especializada. A empresa se baseia em um modelo de negócio hoje replicado em mais de 150 unidades, que têm como origem a vivência prática de seu fundador em logística, transporte e comércio internacional.

China, “fábrica do mundo”

Luis Muller é também um profundo conhecedor da China, país que visita regularmente há cerca de dez anos e nesse tempo, conforme ele destaca, “percebi que a China conseguiu montar um ecossistema que permitiu que o país se transformasse na fábrica do mundo. Isso se deve, entre outros aspectos, ao fato de a China ter uma mão de obra que se torna barata por ser abundante. Em segundo lugar, o país dispõe de muita tecnologia e a partir daí, consegue investir muito na produção de máquinas”.

Muller se mostra impressionado com a cultura empresarial chinesa e lembra que “quando se coloca os pés na China, parece que você está entrando em uma grande empresa. Uma empresa com um código de cultura muito forte, porque todos os chineses têm o mesmo pensamento”. E lembra que quando viajou à China pela primeira vez, há mais de dez anos, “os chineses não sabiam onde ficava o Brasil. Não conheciam o nosso idioma, a nossa capital. Não conheciam a nossa localização geográfica. Ao longo do tempo isso foi se transformando”.

Com as regulares e sucessivas viagens à China, ele percebeu que a proliferação de fábricas por todo o país é outro fator que explica a explosão da indústria chinesa de máquinas e equipamentos. Segundo Luis Muller, “a Alemanha era o grande destaque mundial nesse segmento, mas os chineses atropelaram os alemães há muito tempo. Com mão de obra abundante, tecnologia e equipamentos, eles montam uma fábrica, que pode ser uma fabriqueta de fundo de quintal e nela você encontra uma máquina de última geração, uma CNC (Controle Numérico Computadorizado, máquinas-ferramentas automatizadas, como tornos e fresadoras, operadas por comandos programados via computador. Essas máquinas utilizam softwares (CAM) para cortar, moldar ou furar materiais com alta precisão, repetibilidade e velocidade, sem intervenção manual contínua de um operador), uma sopradora (equipamento industrial utilizado para fabricar peças plásticas ocas (como garrafas, frascos e reservatórios) através do processo de moldagem por sopro). A China consegue produzir tudo isso em larga escala, e o país se especializou em fábricas, em fabricar coisas”.

Ambiente de negócios e infraestrutura invejável

O empresário vê no Estado chinês um forte indutor do processo produtivo do país: “na China, as empresas têm incentivo em relação a crédito, infraestrutura, benefícios fiscais e uma série de outros incentivos. Em contrapartida, elas têm que produzir muito, vender muito e pagar muitos impostos. É o oposto do que a gente vê aqui no Brasil, que não dispõe de um ambiente propício para produzir as manufaturas e vendê-las”.

Além disso, Luis Muller destaca que a China dispõe de uma infraestrutura gigantesca em relação a portos, aeroportos, ferrovias e uma rede de trens de alta velocidade. Segundo ele, entre cinco e seis dos dez maiores portos do mundo estão na China. E, com tudo isso, sublinha, “o país tem uma velocidade muito grande em relação a conseguir lidar com grandes volumes. A isso se soma o fato de que o processo chinês de exportação ou de importação é totalmente digitalizado. Em contrapartida, aqui no Brasil, ainda que tenhamos uma Receita Federal bastante evoluída em relação a tecnologias e documentação, a nossa infraestrutura deixa bastante a desejar. Com isso, no Brasil, uma carga chega aos nossos portos e permanece parada por quatro a cinco dias aguardando pela liberação. Às vezes temos um único fiscal do Ministério da Agricultura para atender a uma região gigantesca. Por outro lado, o Brasil ainda é um país muito protecionista, e o governo busca proteger a indústria nacional, mas nossa indústria não tem capacidade produtiva. Acredito que infraestrutura e tecnologia são os dois principais fatores que fazem a China ser tão eficiente”.

“Custo Brasil” e Reforma Tributária

O executivo da Ásia Source vê no chamado “Custo Brasil” outro sério entrave ao desenvolvimento do Brasil e, por consequência, do comércio exterior brasileiro: “obviamente, isso é algo que não tem nada parecido na China” e lembra que, ao contrário do Brasil, “a China tem uma vasta e moderna rede ferroviária, enquanto o Brasil privilegia o transporte rodoviário. Nossa empresa é sediada em Santa Catarina, mas atendemos clientes do Brasil inteiro e em nossas operações evitamos utilizar os portos de Santos para cima, porque são muito difíceis de se operar. São burocráticos e caros. Temos um cliente em Rondônia que traz cargas para o Paraná ou Santa Catarina, de caminhão, com três, quatro e até cinco dias de viagem porque é mais barato que ir direto para Manaus”.

Luis Muller vê com ceticismo a Reforma Tributária em curso no país e que terá grandes implicações no comércio exterior brasileiro. Segundo ele, “hoje somos atendidos por três contabilistas. Uma delas é uma das maiores contabilistas tributárias de Santa Catarina. Tivemos que contratá-los para dar suporte aos nossos clientes pois 99% das empresas que atendemos nunca importaram na vida e seus contadores pouco ou nada conhecem do processo importador e às vezes tomam decisões equivocadas e atuamos para apoiá-los. A Reforma Tributária vem com o objetivo de simplificar as coisas. Mas ainda não estou conseguindo enxergar isso de uma maneira prática. A mesma coisa se passa com o Simples Nacional, que não tem nada de simples. Depende da atividade principal da empresa, do seu faturamento, se a empresa tem ou não colaboradores”.

Na percepção do executivo, a Reforma Tributária acaba com o diferencial competitivo de Santa Catarina, que passa principalmente pelas condições de desoneração tributária. Algumas empresas têm impostos reduzidos para 3% a 1%, dependendo do ramo de atuação. No geral, o desembaraço aduaneiro é isento do ICMS, permitindo que o pagamento ocorra apenas no momento da venda, o que preserva o caixa da empresa. As condições são tão impactantes que empresários de estados como São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso preferem operar em Santa Catarina, que oferece custos operacionais mais baixos que, por exemplo, os portos paulistas.

Ele destaca que “Santa Catarina se desenvolveu muito por conta disso, em relação à infraestrutura e a geração de empregos. O novo Imposto de Importação já está sendo cobrado e ele não gera crédito. Trata-se de um imposto federal e a gente não sabe onde ele é aplicado. É diferente do IPVA, do IPTU, dos impostos específicos. Não estou vendo como isso vai trazer benefícios para nós. Esperamos a evolução dos acontecimentos para ter um pouco mais de clareza e entender como as coisas vão se comportar daqui para a frente”.

 

 

Tags: