Até quando o Brasil seguirá relegando terras raras a um segundo plano? Ativo é considerado estratégico pelos EUA e pela China

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Enquanto grandes potências estruturam cadeias completas de produção de ímãs de neodímio, o Brasil segue dependente da importação de componentes críticos, apesar de possuir reservas relevantes de terras raras.

Da Redação

Brasília – Terras raras deixaram de ser um tema restrito à mineração para se tornarem um dos principais vetores da disputa econômica global. Esses elementos químicos — entre eles o neodímio — são essenciais para a fabricação de ímãs permanentes de alta performance, usados em motores elétricos, turbinas eólicas, veículos elétricos, equipamentos médicos, sistemas de defesa e automação industrial.

A importância estratégica desses materiais explica por que Estados Unidos e China passaram a tratá-los como ativos de segurança econômica e industrial. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), a demanda global por minerais críticos pode crescer até 500% até 2040, impulsionada pela transição energética, pela eletrificação da economia e pela automação industrial. Ao mesmo tempo, a produção segue altamente concentrada, criando um desequilíbrio estrutural entre oferta e demanda.

Hoje, a China responde por cerca de 60% da produção global de terras raras e por aproximadamente 90% da fabricação mundial de ímãs de neodímio, de acordo com dados do U.S. Geological Survey (USGS). Essa posição não é fruto apenas da disponibilidade mineral, mas de uma estratégia industrial de longo prazo que integrou mineração, refino, separação química e indústria de transformação.

“Terras raras não são estratégicas porque estão no subsolo, mas porque alguém decidiu dominar toda a cadeia”, afirma Rodolfo Midea, especialista em importação de ímãs de neodímio. “A China entendeu isso há décadas. O controle está no refino e na transformação, não apenas na extração.”

Para os EUA, questão de soberania nacional

Diante dessa concentração, os Estados Unidos passaram a tratar a dependência de terras raras como um risco à segurança nacional. Relatórios do Departamento de Energia norte-americano classificam esses materiais como críticos para setores estratégicos, como defesa, energia e tecnologia. Nos últimos anos, o país destinou bilhões de dólares em subsídios e incentivos para reativar minas, desenvolver capacidade de refino e firmar parcerias com países detentores de reservas.

“O movimento dos Estados Unidos não é pontual, é estrutural”, explica Midea. “Eles entenderam que depender quase integralmente de um único fornecedor para insumos críticos é um risco econômico e político.”

O Brasil, por sua vez, ocupa uma posição paradoxal. Dados do Serviço Geológico do Brasil indicam que o país possui cerca de 10% do potencial geológico mundial de terras raras, mas responde por menos de 1% da produção global. Mais do que isso: o país não domina as etapas mais valiosas da cadeia, como refino e produção de ímãs.

Na prática, isso significa que o Brasil exporta potencial mineral e importa tecnologia. Estimativas do setor apontam que mais de 90% dos ímãs de neodímio utilizados pela indústria brasileira são importados, o que expõe empresas a variações cambiais, gargalos logísticos e rupturas de fornecimento.

“O Brasil tem o recurso, mas não tem projeto”, afirma Midea. “Sem uma estratégia industrial clara, continuamos dependentes de produtos de alto valor agregado, mesmo tendo matéria-prima.”

Essa dependência tem impacto direto na competitividade industrial. Em setores altamente automatizados, a falta de um componente crítico pode paralisar linhas de produção inteiras. Segundo estimativas de mercado, o custo de parada de uma fábrica automatizada pode chegar a milhões de reais por dia, considerando perdas de produção, contratos e penalidades.

Para Midea, a discussão sobre terras raras no Brasil precisa mudar de patamar. “Não é uma pauta ambiental ou mineral. É uma pauta econômica e industrial. Quem controla a cadeia de materiais críticos controla parte relevante da economia moderna.”

 

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