Allan Gallo (*)
Quando nós, brasileiros, acompanhamos a economia chinesa, costumamos procurar o que seria equivalente à Selic. É uma atitude compreensível, tendo em vista o papel central dela em nosso sistema, mas é um erro grosseiro. A China possui juros, compulsório e operações de mercado aberto, mas não possui a mesma concepção de política monetária que prevalece no Ocidente.
Durante boa parte das últimas décadas, o Banco Popular da China não utilizou os juros como principal instrumento de política econômica. Em vez disso, adotou metas para o crescimento da oferta monetária e do crédito, inspiradas em versões adaptadas da teoria quantitativa da moeda. Enquanto bancos centrais ocidentais migravam para regimes de metas de inflação, Pequim continuava monitorando agregados monetários, como o M2, e a expansão do financiamento da economia.
Nas economias desenvolvidas, a política monetária atua principalmente sobre o preço do dinheiro. Elevam-se os juros para conter a inflação e reduzem-se os juros para estimular a atividade econômica. Na China, no entanto, o objetivo sempre foi mais amplo. O Banco Popular da China procura influenciar simultaneamente o preço, a quantidade e a distribuição do crédito. Não basta determinar quanto custa financiar uma fábrica; também importa quais setores terão acesso preferencial ao financiamento.
Essa lógica ajuda a explicar por que Pequim continua recorrendo a instrumentos pouco usuais em economias avançadas. Além de administrar juros e liquidez, as autoridades utilizam compulsórios, programas de refinanciamento direcionado, orientações administrativas aos bancos, gestão cambial e controles de capitais para favorecer atividades consideradas estratégicas, como manufatura avançada, tecnologia, infraestrutura e transição energética.
É verdade que, nos últimos anos, a China modernizou parte de seu sistema monetário. Reformas fortaleceram o papel de taxas de mercado, como a Loan Prime Rate (LPR), e aprimoraram os mecanismos de transmissão da política monetária, mas, ainda assim, o país não abandonou os instrumentos quantitativos e administrativos que marcaram sua trajetória de desenvolvimento.
Os resultados desse modelo de condução de política monetária para a China são difíceis de ignorar, mas o desafio atual é particularmente complexo e envolve, em certa medida, um desgaste do sistema. Após décadas preocupado com a inflação, o Banco Popular da China enfrenta agora pressões deflacionárias associadas à crise imobiliária, ao envelhecimento populacional e à desaceleração da demanda doméstica. Isso tem obrigado as autoridades a buscar um delicado equilíbrio entre estimular a atividade econômica e evitar o acúmulo de novos desequilíbrios financeiros. Um delicado equilíbrio de pratos.
China não convergiu para o modelo americano nem preservou integralmente o sistema que construiu nos anos 1990. O retrato do resultado atual é um arranjo híbrido, no qual mecanismos de mercado convivem com uma forte capacidade estatal de coordenação econômica. Compreender essa política monetária exige certo traquejo de especialistas e curiosos que insistem, em vão, em tentar encontrar um equivalente perfeito chinês para a nossa Selic, pois a questão central não é qual é a taxa de juros da China, mas entender por que Pequim acredita que um banco central deve fazer muito mais do que apenas controlar a inflação.
(*) Allan Gallo é professor de Economia e Direito Internacional na Universidade Presbiteriana Mackenzie, pesquisador do Centro Mackenzie de Liberdade Econômica (MackLiber) e coordenador do Núcleo de Estudos sobre a China (NECH)







