Josep Buades (*)
Uma garrafa de vinho aberta durante um jantar, um azeite que transforma uma receita simples ou um queijo servido à mesa podem parecer escolhas cotidianas. Mas, por trás de cada um desses produtos, existe uma história que conecta agricultores, pequenos ou grandes produtores, empresas, territórios e consumidores. É justamente nessa conexão que reside uma das oportunidades mais interessantes do acordo entre a União Europeia e o Mercosul, que pode aproximar ainda mais a Catalunha do Brasil e abrir novos caminhos para os alimentos produzidos em nosso território.
A Catalunha tem uma longa tradição agroalimentar, construída a partir da diversidade de sua produção, da qualidade de seus produtos e da capacidade de combinar conhecimento e inovação. Essa identidade também se reflete nos negócios. Em 2025, por exemplo, as exportações agroalimentares catalãs alcançaram € 16,9 bilhões, um recorde histórico que demonstra a força internacional do setor e a importância dos mercados externos para o desenvolvimento de nossas empresas.
O Brasil já faz parte dessa trajetória. Segundo dados da Prodeca (Promotora dos Alimentos Catalãs), em 2024, a Catalunha exportou 23.600 toneladas de alimentos e bebidas para o país, sendo as frutas o principal produto agroalimentar exportado, representando 50,98% do total. O azeite de oliva também teve uma participação expressiva nesse intercâmbio, assim como os vinhos e espumantes. Esses números mostram que não estamos falando de uma relação que começa agora, mas de uma parceria comercial que tem espaço para crescer e se diversificar ainda mais.
É nesse cenário que o acordo entre a União Europeia e o Mercosul ganha relevância, já que com o início de sua aplicação provisória em maio de 2026, abriu-se uma nova etapa para as relações comerciais entre os dois blocos. Afinal, a redução gradual de determinadas tarifas pode tornar produtos europeus mais competitivos no mercado sul-americano e criar condições favoráveis para que empresas catalãs ampliem sua presença no Brasil.
Para os produtores, especialmente as pequenas e médias empresas, esse movimento representa a possibilidade de alcançar novos clientes e construir relações comerciais mais duradouras. Para os importadores e distribuidores brasileiros, pode significar um portfólio mais diversificado e novas oportunidades de negócio. E, para quem está do outro lado dessa cadeia, diante das prateleiras de um supermercado, a perspectiva é encontrar uma variedade maior de produtos e conhecer melhor a riqueza gastronômica de outras regiões.
O azeite de oliva ilustra bem esse potencial. O acordo, inclusive, prevê a redução gradual das tarifas aplicáveis ao produto, o que pode favorecer a sua competitividade ao longo do tempo. Para os produtores catalães, essa é uma excelente oportunidade de fortalecer a sua presença em um mercado que já conhece os alimentos importados e que oferece possibilidades de expansão.
O mesmo vale para os vinhos, cuja presença nos mercados internacionais depende não apenas da qualidade, mas também da capacidade de construir uma identidade reconhecível e estabelecer relações de confiança com importadores, distribuidores e consumidores. Os queijos, por sua vez, podem encontrar novas oportunidades dentro das condições específicas de acesso previstas no acordo, incluindo mecanismos de cotas tarifárias. Em todos esses casos, o avanço comercial dependerá da capacidade das empresas de compreender o mercado brasileiro e desenvolver estratégias adequadas às suas características.
É importante, porém, olhar para essa oportunidade sem criar expectativas simplistas. A redução de tarifas não significa que os produtos chegarão automaticamente mais baratos aos supermercados. O preço final também depende do câmbio, do transporte, dos custos de importação e da distribuição. O acordo cria condições mais favoráveis, mas transformar essas condições em benefícios concretos exige trabalho, planejamento e cooperação entre os diferentes elos da cadeia.
É justamente aí que o papel das instituições públicas se torna relevante. Na Catalunha, a internacionalização é parte de uma estratégia de fortalecimento econômico que busca apoiar as empresas na conquista de novos mercados, ampliando a sua competitividade e valorizando a produção local. A aproximação com o Brasil deve ser entendida dentro dessa perspectiva, como um esforço para criar pontes entre empresas, identificar oportunidades e transformar o interesse comercial em parcerias efetivas.
Também acredito que existe uma dimensão cultural nessa aproximação que merece atenção. Exportar um alimento não é apenas vender um produto. É apresentar uma origem, compartilhar uma maneira de produzir e permitir que outras pessoas descubram sabores e tradições diferentes. Quando um consumidor brasileiro escolhe um azeite catalão ou experimenta um vinho produzido em nosso território, passa a ter contato com uma parte da nossa identidade. Essa relação, quando construída com consistência, pode ir muito além de uma transação comercial.
O fato é que o Brasil já é um parceiro importante para a Catalunha, tanto pelo tamanho de seu mercado quanto pela diversidade de suas empresas, sem contar sua capacidade de estabelecer relações comerciais de longo prazo. Ao mesmo tempo, o sucesso dessa aproximação depende de uma compreensão realista das necessidades dos consumidores, das exigências regulatórias e das particularidades da distribuição brasileira. É preciso aproximar produtores e compradores, estimular o conhecimento mútuo e criar condições para que os negócios prosperem de forma sustentável.
O acordo entre a União Europeia e o Mercosul oferece uma oportunidade concreta para avançar nessa direção. No entanto, seu valor não estará apenas nas tarifas que deixarão de ser cobradas ou no volume de produtos comercializados, mas também na capacidade de aproximar economias, fortalecer empresas e construir relações que se mantenham ao longo do tempo.
No fim, a distância entre um produtor catalão e a mesa de uma família brasileira não se mede apenas em quilômetros, já que depende das condições que criamos para que produtos, empresas e pessoas se encontrem. O acordo pode ajudar a encurtar esse caminho, porém, cabe aos governos e empresas transformarem essa oportunidade em uma relação comercial mais forte, capaz de gerar valor para quem produz, para quem distribui e, sobretudo, para quem consome.
(*) Josep Maria Buades é diretor do escritório da ACCIÓ — Catalonia Trade & Investment no Brasil.







