Déficit de US$ 7,16 bilhões no comércio de serviços de TIC mostra forte dependência da tecnologia estrangeira

Compartilhe:

Estudo da Softex aponta déficit de US$ 7,16 bilhões no comércio exterior de serviços de TIC; especialista defende ampliar a capacidade de desenvolver, adaptar e integrar soluções tecnológicas às necessidades dos negócios

Da Redação

Brasília – O Brasil amplia o uso de tecnologias digitais nas empresas, mas ainda enfrenta um desafio estrutural: transformar a adoção de ferramentas em maior capacidade de desenvolver soluções próprias e reduzir a dependência de fornecedores externos.

O Estudo TICs 2026, do Observatório Softex, aponta que as importações brasileiras de serviços de tecnologia da informação e comunicação somaram US$ 13,33 bilhões em 2024, enquanto as exportações alcançaram US$ 6,17 bilhões. O resultado foi um déficit de US$ 7,16 bilhões no comércio exterior do setor.

O levantamento também mostra que 79,8% das empresas brasileiras que utilizam inteligência artificial recorrem a softwares e sistemas disponíveis no mercado. Embora a contratação de soluções prontas seja uma estratégia legítima e, em muitos casos, eficiente, o dado abre espaço para discutir até que ponto as organizações conseguem adaptar a tecnologia às próprias necessidades.

Para Rafael Franco, especialista em tecnologia e soluções corporativas e fundador da Joya Solutions, a questão não é defender que todas as empresas desenvolvam seus próprios softwares, mas compreender quais capacidades precisam permanecer sob seu domínio.

“Comprar uma solução pronta pode ser a melhor decisão para determinado problema. O risco está em construir toda a operação sobre ferramentas que a empresa não consegue adaptar, integrar ou substituir sem grandes impactos. É preciso entender quais tecnologias são estratégicas para o negócio e onde existe dependência excessiva de um fornecedor”, afirma.

Comprar tecnologia não elimina a necessidade de conhecimento técnico

A contratação de plataformas prontas permite acelerar a implantação de ferramentas e evitar investimentos elevados no desenvolvimento de sistemas próprios. No entanto, a escolha também envolve avaliar limitações de personalização, custos de expansão, possibilidades de integração e condições para migrar informações caso a empresa precise mudar de fornecedor.

Essas questões ganham relevância quando diferentes áreas passam a depender de sistemas que não foram planejados para funcionar em conjunto. O resultado pode ser uma estrutura na qual cada ferramenta resolve uma necessidade isolada, mas a operação depende de integrações adicionais, processos manuais ou serviços complementares para funcionar de ponta a ponta.

Segundo Franco, desenvolver capacidade tecnológica própria não significa necessariamente criar um produto do zero. Em muitos casos, envolve dominar a arquitetura da operação, compreender os dados utilizados, documentar integrações e manter profissionais capazes de avaliar alternativas técnicas.

“Uma empresa pode usar várias plataformas de mercado e continuar tendo autonomia. O importante é saber como elas se conectam, quais informações compartilham, quais são as limitações contratuais e o que seria necessário para trocar uma delas. Autonomia não é fazer tudo internamente. É conseguir tomar decisões sem ficar refém de uma única opção”, explica.

O custo da dependência aparece quando o negócio muda

A dependência tecnológica nem sempre é percebida durante a contratação de um sistema. Ela costuma se tornar mais evidente quando a empresa cresce, precisa criar um novo serviço, altera seus processos ou descobre que uma ferramenta não oferece determinada funcionalidade.

Nesses momentos, a ausência de documentação, o desconhecimento das integrações e a falta de profissionais especializados podem aumentar o custo e o tempo necessários para realizar mudanças.

A avaliação também precisa considerar a capacidade de negociação da empresa. Quando uma plataforma concentra funções essenciais e não existem alternativas viáveis, mudanças de preço, de condições comerciais ou de funcionalidades podem ter consequências importantes para a operação.

“É importante avaliar o custo total de uma tecnologia, não apenas o valor da licença. Quanto custa integrá-la aos outros sistemas? Quanto custa adaptar um processo? Se a empresa precisar sair dessa plataforma, consegue levar seus dados e continuar operando? Essas perguntas deveriam fazer parte da decisão desde o início”, diz Franco.

O especialista recomenda que as organizações identifiquem quais sistemas são críticos, documentem as integrações, avaliem alternativas disponíveis e definam quais competências técnicas precisam manter internamente ou acessar por meio de parceiros especializados.

Autonomia tecnológica começa com decisões de arquitetura

A discussão sobre dependência tecnológica também envolve o desenvolvimento de um mercado capaz de oferecer soluções adaptadas às particularidades das empresas brasileiras. O déficit comercial apontado pela Softex evidencia a diferença entre o volume de serviços de TIC comprados e vendidos pelo país, mas não significa, isoladamente, que toda importação represente um problema ou que uma solução nacional seja necessariamente superior.

Para Franco, o objetivo deve ser ampliar as possibilidades de escolha e evitar que decisões tomadas por conveniência no curto prazo criem limitações desproporcionais no futuro.

“Não faz sentido desenvolver internamente algo que já existe no mercado e atende bem à empresa. Mas também não faz sentido contratar uma ferramenta sem avaliar como ela se encaixa na operação e quais dependências cria. A decisão precisa considerar o problema, o custo, a capacidade de adaptação e a importância daquela tecnologia para o negócio”, afirma.

Em um cenário de crescente digitalização, a capacidade de combinar soluções de mercado, desenvolvimento próprio e integração entre sistemas pode se tornar um diferencial competitivo. Para as empresas, o desafio não é abandonar a tecnologia estrangeira, mas construir conhecimento suficiente para escolher, adaptar e utilizar essas ferramentas de acordo com seus objetivos.

“A pergunta não deveria ser apenas qual software a empresa vai contratar. É preciso perguntar qual capacidade ela precisa construir para continuar evoluindo, independentemente da ferramenta escolhida hoje”, conclui Franco.

 

Tags: