Foto Abicalçados/Divulgação

Exportações de calçados contraem, importações disparam e superávit do setor recua 56% até setembro

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Compras de produtos estrangeiros avançam, lideradas por fornecedores asiáticos, enquanto exportações brasileiras perdem força e saldo comercial do setor encolhe mais de 56% em dólares

Da Redação (*)

Brasília – O avanço dos calçados importados no mercado brasileiro amplia a pressão sobre a indústria nacional em um momento de retração das exportações e dificuldades para o consumo interno. Entre janeiro e setembro de 2026, o Brasil importou 36,6 milhões de pares, alta de 9,1% em relação ao mesmo período de 2025. No sentido contrário, os embarques brasileiros ao exterior recuaram 6,7% em volume e 15,6% em receita. O resultado é uma deterioração de mais de 56% no saldo comercial do setor, em dólares.

O movimento preocupa a indústria calçadista porque combina a perda de espaço no mercado internacional com o avanço da concorrência estrangeira dentro do próprio país. A expansão das compras de calçados asiáticos, especialmente do Vietnã e da China, reforça o alerta sobre a capacidade de as fábricas brasileiras manterem sua produção, competitividade e postos de trabalho.

Segundo analistas, a preocupação é ainda maior diante da alegação de que fabricantes de países asiáticos podem se beneficiar de incentivos e subsídios governamentais, criando condições de concorrência desfavoráveis para produtores brasileiros. A existência e a dimensão desses subsídios, porém, precisam ser demonstradas por dados e investigações específicas. O avanço das importações, por si só, não comprova que todos os produtos estrangeiros sejam subsidiados.

Os números compilados pela Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), com base em dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), mostram que a pressão externa cresce justamente quando as vendas brasileiras ao exterior perdem força.

Importações asiáticas ganham espaço

O Vietnã lidera as origens das importações brasileiras de calçados em valor. De janeiro a setembro, o país enviou 11 milhões de pares ao Brasil, movimentando US$ 250,66 milhões. Na comparação com o mesmo intervalo de 2025, houve crescimento de 17,8% em volume e de 31,1% em receita.

A China também ampliou sua presença no mercado brasileiro. As importações provenientes do país somaram 10,74 milhões de pares nos nove primeiros meses do ano, alta de 22,5%. Em valor, atingiram US$ 37,5 milhões, incremento de 9,5%.

A Indonésia aparece na sequência, com 6 milhões de pares importados e US$ 109,65 milhões em compras. Nesse caso, o volume recuou 14%, enquanto o valor avançou 1,4%.

Para especialistas, os números revelam a importância dos fornecedores asiáticos no abastecimento do mercado nacional. Para a indústria brasileira, o desafio é competir com produtos estrangeiros em um cenário de custos, políticas industriais e condições comerciais que podem variar significativamente entre os países.

Exportações perdem força e receita cai

Enquanto as importações avançam, as exportações brasileiras enfrentam dificuldades. Entre janeiro e setembro, o país embarcou 71,6 milhões de pares, que renderam US$ 621,14 milhões. O resultado representa queda de 6,7% em volume e de 15,6% em receita na comparação anual.

Somente em setembro, foram exportados 9,15 milhões de pares, gerando US$ 79,7 milhões. O volume ficou praticamente estável, com recuo de 0,5%, mas a receita caiu 6,6% ante setembro de 2025.

A diferença entre a variação do volume e a da receita indica uma redução do valor médio obtido por par exportado. Esse cenário pressiona as receitas das empresas e dificulta a compensação dos custos de produção, especialmente em um ambiente de concorrência internacional mais intensa.

Empregos e produção entram na zona de preocupação

A combinação de exportações mais fracas e importações crescentes representa um desafio para as fábricas brasileiras. Com menos receita proveniente das vendas externas e maior concorrência no mercado doméstico, as empresas podem enfrentar dificuldades para preservar margens, manter níveis de produção e sustentar investimentos.

O risco para o emprego está ligado à eventual perda de mercado e à necessidade de ajuste da atividade industrial. Caso a pressão persista e leve à redução da produção, os efeitos podem alcançar trabalhadores das fábricas e atividades associadas à cadeia produtiva, como fornecedores de componentes, logística e distribuição.

Os dados comerciais apresentados, contudo, não quantificam eventuais perdas de postos de trabalho. Para dimensionar os impactos sobre o emprego, é necessário cruzar os números de comércio exterior com estatísticas de produção, admissões, desligamentos e fechamento de unidades industriais.

Pequenas remessas ampliam a preocupação

Além das importações convencionais, a Abicalçados chama a atenção para a entrada de calçados por meio de pequenas remessas de plataformas internacionais. Segundo a entidade, esse canal amplia a pressão competitiva sobre os fabricantes brasileiros, especialmente em razão do tratamento tributário aplicável às compras internacionais de baixo valor.

A discussão envolve as regras de tributação das remessas, as condições de concorrência entre vendedores nacionais e estrangeiros e os efeitos dessas diferenças sobre o varejo e a indústria. A avaliação do impacto exige considerar a legislação vigente, os tributos efetivamente recolhidos e os custos suportados por cada modalidade de venda.

Diversificação de mercados não evita perdas

A indústria brasileira tem buscado ampliar sua presença no exterior para reduzir a dependência de mercados tradicionais. Entre janeiro e setembro, as exportações para países da América Latina, excluída a Argentina, cresceram 11,2% em dólares e 10,4% em pares.

Apesar desse avanço, os resultados não foram suficientes para compensar o desempenho negativo das vendas externas como um todo.

“Existe um esforço para diversificação de mercados. Hoje, o nosso calçado está presente em mais de 160 países, mas não tem sido o suficiente para reverter os números negativos nos embarques”, afirma Haroldo Ferreira, presidente-executivo da Abicalçados.

Segundo o dirigente, o cenário internacional instável e as barreiras comerciais têm prejudicado as exportações para mercados estratégicos. Ao mesmo tempo, a reorganização dos fluxos globais de comércio estaria contribuindo para redirecionar produtos estrangeiros ao Brasil, intensificando a concorrência com os fabricantes nacionais.

Estados Unidos e Argentina registram quedas

Os Estados Unidos continuam como principal destino dos calçados brasileiros. Nos nove primeiros meses de 2026, receberam 7,9 milhões de pares, equivalentes a US$ 130,84 milhões. O resultado representa queda de 4,3% em volume e de 23,8% em receita.

A Argentina, segundo principal mercado, apresentou retração ainda mais acentuada. Os embarques somaram 6,17 milhões de pares e US$ 74,33 milhões, recuos de 43,7% e 52%, respectivamente.

O Paraguai ocupa a terceira posição entre os destinos. O país recebeu 6 milhões de pares, que renderam US$ 35,9 milhões. Houve queda de 14,7% no volume, mas crescimento de 6,4% na receita.

Rio Grande do Sul lidera exportações estaduais

O Rio Grande do Sul permanece na liderança entre os estados exportadores. De janeiro a setembro, as fábricas gaúchas embarcaram 25,26 milhões de pares, com receita de US$ 309,2 milhões. O volume cresceu 2,1%, enquanto o valor recuou 14%.

O Ceará aparece em segundo lugar, com 19,6 milhões de pares e US$ 108,43 milhões, quedas de 19% em volume e de 23,8% em receita.

São Paulo ocupa a terceira posição, com 4,43 milhões de pares exportados e US$ 62,84 milhões em receita. As reduções foram de 15,5% em volume e 17,7% em valor.

Setor enfrenta desafio para recuperar competitividade

O quadro do comércio exterior evidencia uma dupla pressão sobre a indústria calçadista brasileira: dificuldades para ampliar as vendas no exterior e crescimento das importações no mercado doméstico. A queda superior a 56% no saldo comercial sintetiza a dimensão do desequilíbrio acumulado até setembro.

Para o setor, o desafio passa por recuperar mercados externos, fortalecer a competitividade das fábricas nacionais e avaliar se as condições de concorrência com os produtos importados são equilibradas. A discussão sobre eventuais subsídios estrangeiros e diferenças tributárias também exige dados verificáveis que permitam identificar práticas desleais e dimensionar seus efeitos.

Mais do que um resultado negativo na balança comercial, a trajetória acende um alerta para a sustentabilidade da produção nacional. O impacto definitivo sobre fábricas e empregos dependerá da evolução das importações, das exportações, da demanda interna e da capacidade de resposta das empresas e das políticas públicas.

(*) Com informações da Abicalçados

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