Exportações brasileiras de calçados têm pior desempenho desde a pandemia; queda nos Estados Unidos e na Argentina contrasta com avanço das importações asiáticas no mercado nacional
Da Redação (*)
Brasília – O calçado brasileiro está perdendo terreno — dentro e fora de casa. Entre janeiro e agosto, o Brasil exportou 62,45 milhões de pares, que renderam US$ 541,45 milhões. Na comparação com o mesmo período do ano anterior, a retração foi de 7,5% em volume e 16,8% em receita. É o pior resultado para o período desde 2020, ano marcado pelo impacto da pandemia de Covid-19.
O dado mais preocupante, porém, não está apenas na queda das exportações. Enquanto os embarques brasileiros recuam, as importações de calçados avançam no mercado doméstico — puxadas principalmente por fornecedores asiáticos.
Entre janeiro e agosto, entraram no país 33 milhões de pares, alta de 9,6% sobre o mesmo período do ano anterior. Em valor, as compras externas cresceram 11%, alcançando US$ 429,7 milhões.
Em outras palavras: o Brasil está exportando menos e importando mais.
É uma combinação que acende um sinal de alerta para uma indústria que depende tanto da conquista de mercados internacionais quanto da capacidade de competir dentro do próprio país.
O mapa da crise: dois mercados que fizeram falta
A retração das exportações brasileiras está concentrada, sobretudo, em dois dos principais destinos do setor: Estados Unidos e Argentina. Segundo o presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria e Comércio de Calçados (Abicalçados), Haroldo Ferreira, os dois mercados representaram, juntos, uma perda de US$ 111 milhões em exportações no acumulado do ano, em relação ao mesmo intervalo do ano anterior.
Os Estados Unidos continuam sendo um mercado estratégico, mas o desempenho em receita piorou.
Em agosto, o Brasil embarcou 1,13 milhão de pares para o mercado americano, alta de 40,5% em volume. A receita, entretanto, caiu 9,2%, para US$ 19,42 milhões.
O contraste revela uma mudança importante: vender mais pares não significou vender mais dólares.
O preço médio do calçado exportado para os Estados Unidos caiu 35,4% em agosto, para US$ 17,20. No acumulado de janeiro a agosto, foram 7,38 milhões de pares, que geraram US$ 120,5 milhões — queda de 4,1% em volume e de expressivos 22,8% em receita.
Ferreira atribui parte do movimento à menor participação de categorias de maior valor unitário, especialmente os calçados de couro, além da mudança no perfil das vendas e de efeitos relacionados à base de comparação
.Argentina: queda ainda mais profunda
Se os Estados Unidos representam uma ferida, a Argentina aparece como um dos maiores pontos de retração. Em agosto, o mercado argentino recebeu 1,25 milhão de pares brasileiros, mas pagou apenas US$ 11,5 milhões por eles. Na comparação anual, o volume despencou 23% e a receita, 37,6%.
No acumulado do ano, a retração é ainda mais contundente: 4,52 milhões de pares, no valor de US$ 60,3 milhões, representam quedas de 51,6% em volume e 55,6% em receita.
Segundo a Abicalçados, a combinação de menor consumo argentino e maior presença de calçados provenientes da Ásia, favorecida pela redução tarifária para produtos de fora do Mercosul, tem ampliado a pressão sobre o produto brasileiro.
O problema, portanto, não é simplesmente perder um comprador.
É perder espaço para concorrentes que chegam ao mesmo mercado com uma estrutura de custos e condições comerciais diferentes.
O paradoxo que preocupa a indústria
É aqui que os números brasileiros ganham uma dimensão maior.
De um lado, as exportações recuam:
- 62,45 milhões de pares exportados de janeiro a agosto;
- US$ 541,45 milhões em receita;
- queda de 7,5%no volume;
- queda de 16,8%no valor.
Do outro, as importações crescem:
- 33 milhões de pares entrando no Brasil;
- US$ 429,7 milhões em compras;
- alta de 9,6%no volume;
- alta de 11%no valor.
O contraste não significa, isoladamente, que uma coisa seja causa direta da outra. Mas revela uma mudança competitiva que merece atenção: o produto estrangeiro ganha espaço justamente quando a indústria brasileira enfrenta dificuldades para vender lá fora. E o avanço tem um endereço predominante.
O avanço asiático
China, Vietnã e Indonésia respondem juntos por aproximadamente 77% dos pares de calçados importados pelo Brasil no período — cerca de oito em cada dez pares.
A China lidera em volume, com 10,28 milhões de pares, alta de 21,7%. O valor dessas importações chegou a US$ 33,7 milhões, crescimento de 8,1%.
O Vietnã aparece logo atrás, com 9,77 milhões de pares e US$ 214,37 milhões. O volume aumentou 2,1%, enquanto a receita avançou 14,8%.
A Indonésia completou o trio asiático, com 5,42 milhões de pares e US$ 97,12 milhões.
Somados, os três países enviaram ao Brasil 25,47 milhões de pares nos oito primeiros meses do ano. Não se trata, portanto, de um movimento marginal. A Ásia já ocupa uma fatia dominante das importações brasileiras de calçados.
E existe ainda outra pressão: os componentes
A pressão não termina no calçado pronto. As importações de partes de calçados — como cabedais, solas, saltos e palmilhas — alcançaram US$ 34,47 milhões entre janeiro e agosto, alta de 16,7% sobre o mesmo período anterior.
China, Paraguai e Vietnã foram as principais origens.
O dado é relevante porque mostra que a disputa não acontece apenas na prateleira. Ela também alcança a cadeia produtiva.
Estados Unidos: vende-se mais, mas por menos
O comportamento das exportações para os Estados Unidos merece um capítulo à parte.
Em agosto, o volume enviado ao país cresceu 40,5%, mas a receita caiu 9,2%.
Isso significa que o crescimento físico dos embarques veio acompanhado de uma forte redução do valor médio. É um fenômeno que ajuda a explicar por que a crise das exportações não pode ser medida apenas pelo número de pares.
Para a indústria, vender mais e receber menos pode ser tão preocupante quanto vender menos
Quando produtos de maior valor agregado perdem participação, a receita recua mais rapidamente do que o volume. E é justamente na agregação de valor que a indústria brasileira precisa encontrar parte de sua vantagem competitiva.
Rio Grande do Sul ainda lidera — mas sente a pressão
Entre os estados exportadores, o Rio Grande do Sul permanece na liderança.
Em agosto, as fábricas gaúchas embarcaram 2,46 milhões de pares, no valor de US$ 34,95 milhões. Na comparação com agosto do ano anterior, as quedas foram de 14,7% em volume e 16,6% em receita.
No acumulado do ano, entretanto, há uma particularidade: os embarques gaúchos cresceram 3,2%, para 22 milhões de pares, enquanto a receita caiu 14,4%, para US$ 269,54 milhões.
Mais uma vez aparece o mesmo fenômeno: volume e valor caminham em direções opostas.
O Ceará ocupa a segunda posição, com 17,52 milhões de pares exportados e US$ 97,3 milhões em receita. O estado acumulou quedas de 17,8% em volume e 23,8% em valor.
São Paulo aparece em terceiro, com 3,9 milhões de pares e US$ 55,5 milhões, recuos de 17,6% e 18,6%, respectivamente.
Uma indústria diante de uma encruzilhada
O setor calçadista brasileiro está diante de uma equação difícil.
Precisa recuperar mercados importantes, como Estados Unidos e Argentina. Precisa encontrar novos destinos capazes de compensar essas perdas. Precisa preservar competitividade diante da concorrência internacional. E, ao mesmo tempo, precisa enfrentar o crescimento das importações no próprio mercado doméstico.
A discussão sobre a concorrência asiática ganha ainda mais peso quando aparecem suspeitas ou acusações de práticas comerciais consideradas desleais, como o dumping.
Mas há uma distinção fundamental: crescimento das importações e preços competitivos não constituem, sozinhos, prova de dumping. Para que a acusação seja apresentada como fato, é necessário respaldo em investigação e evidências específicas das autoridades competentes.
O que os números já deixam claro é outra coisa.
A pressão existe. E está crescendo.
O Brasil exporta menos calçados em valor. Estados Unidos e Argentina reduziram drasticamente suas compras. Enquanto isso, o mercado brasileiro recebeu mais pares estrangeiros, sobretudo asiáticos.
Se essa combinação persistir, o risco não é apenas estatístico.
É de perda de mercado, redução de margem, enfraquecimento da capacidade produtiva e, no limite, de deterioração da própria base industrial brasileira.
O sapato que chega de fora pode parecer apenas mais uma opção na vitrine.
Para a indústria nacional, entretanto, cada par representa uma disputa por preço, mercado, escala e sobrevivência.
E os números de 2026 mostram que essa disputa já está em curso.
(*) Com informações da Abicalçados.







