Investimento recorde, disputa de mercado e o dilema da transferência de tecnologia
Frederico Lamego (*)
O maior ciclo de investimento em infraestrutura tecnológica da história recente está em curso. Amazon, Microsoft, Alphabet (Google) e Meta devem investir, juntas, entre US$ 650 bilhões e US$ 725 bilhões em 2026 em infraestrutura de IA no mundo todo — alta de quase 70% sobre 2025. Segundo a PwC/Oxford Economics, o mundo deve investir US$ 31,6 trilhões em data centers até 2050. E a América Latina, pela primeira vez, deixou de ser espectadora. Diversos investimentos vêm sendo anunciados em vários países. Há duas disputas simultâneas: entre países, que competem por energia limpa, incentivos fiscais e previsibilidade regulatória; e entre plataformas que buscam o domínio do mercado de nuvem regional. O desafio está em não perder essa onda de investimentos que dependerá diretamente do arcabouço legal que vem sendo desenhado no Brasil, México, Chile e Colômbia.
Há diversos investimentos em curso. A OpenAI escolheu a Argentina para sediar o primeiro data center do projeto Stargate na América Latina (US$ 25 bilhões na Patagônia). A TikTok anunciou seu maior investimento na região com mais de US$ 39 bilhões (R$ 200+ bi) no Ceará, Brasil. O Mercado Livre, pela via da logística de e-commerce, confirmou aporte recorde de US$ 11,2 bilhões (R$ 57 bi) no Brasil em 2026. A Amazon anunciou US$ 14,6 bilhões em investimentos para infraestrutura de nuvem na região: US$ 5,6 bi no Brasil, US$ 5 bi no México e US$ 4 bi no Chile, além de investimentos em operações logísticas. Já Microsoft investe US$ 2,9 bilhões (R$ 14,7 bi) em nuvem e IA no Brasil até 2027. Já a Google opera regiões em São Paulo, Santiago e Querétaro, tendo anunicado a aplicação de recursos da ordem de US$ 850 milhões no Uruguai. O Brasil lidera os investimentos na região, com 48% da capacidade instalada de data centers e 71% de toda a capacidade em construção, à frente de México, Chile e Argentina somados.

Em paralelo a esses investimentos, há discussões regulatóras e sobre transferência de tecnologias. Na Argentina, um único projeto de data center da OpenAI veio acompanhado de novos acordos de transferência de dados com os EUA. Na Colômbia, a tramitação da lei de proteção a menores nas redes envolveu diálogo intenso entre o setor e o Congresso. No Chile e no Uruguai, projetos de data center de Google e AWS passaram por renegociação de escala e de uso de recursos hídricos junto a comunidades locais — um processo aponta caminhos de convivência entre investimentos e sustentabilidade. E, no Brasil, há diversos projetos de lei e resoluções em curso: o PL 2338/2023 que trata de marca legal da inteligência artifical, além do PL 4675/2025 que propõe regulações pelo CADE para plataformas digitais. Este último foi inclusive objeto do tarifaço americano contra produtos brasileiros que citou explicitamente a regulação de plataformas. Há ainda o PL 278/2026 que trata do Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter – Redata que está em fase de sanção pela Presidência. A Resolução Gecex nº 852/2026 elevou as alíquotas do Imposto de Importação sobre servidores, semicondutores e circuitos integrados (7,2% a 25%), acirrando o embate entre big techs — que preferem importar servidores já montados, com GPUs da Nvidia e AMD embutidas em arquiteturas proprietárias — e fabricantes nacionais.
No tema da tranferência de tecnologia, há discussões sobre a necessidade dos países desenvolverem seus modelos de IA. Os atuais investimentos focam em construção civil, energia, água e operação, enquanto o desenvolvimento de modelos de IA e o desenho de chips permanecem nos países de origem. Contudo, o desenvolvimento dessa agenda só será possível com investimentos em infraestrutura e capacitação. Há problemas relacionados com a infraestrutura de cabos submarinos e o gargalo de conexão à rede elétrica — apontado pela PwC como o principal limitador global do setor. No tema da logística física de e-commerce, há falta de energia e mão de obra que afetam as operações da Amazon e do Mercado Livre.
A manutenção do fluxo atual de investimentos — e a perspectiva de novos aportes — dependerá, assim, diretamente do arcabouço legal que Brasil, México, Chile e Colômbia estão desenhando. O caso brasileiro merece atenção especial: o país reúne potencial para se tornar ator relevante na transição energética justamente como complemento à instalação de data centers. Nesse sentido, a regulamentação da reforma tributária tende a ter impacto positivo, ao trazer previsibilidade de médio prazo para investimentos de capital intensivo e longa maturação. Ao mesmo tempo, cresce a preocupação de que o excesso de regulação e a competição predatória entre estados e países acabem por prejudicar, em vez de consolidar, essa onda. Ou seja, a soberania digital dependerá da qualidade da regulação doméstica e não do estabelecimento de condicionalidades ao capital estrangeiro. O desafio dos próximos anos será duplo: atrair e reter capital sem transformar a disputa numa corrida ao fundo do poço regulatório.
(*) Frederico Lamego é Assessor Especial da Confederação Nacional da Indústria – CNI e Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília.







