Amanda Prado (*)
Os números mais recentes sobre criptoativos no Brasil deixam claro que estamos diante de um mercado em rápida expansão, mas ainda pouco integrado à economia real, especialmente quando falamos de comércio exterior. Há crescimento, há fluxo internacional relevante, porém ainda existe um abismo entre o volume financeiro movimentado e o uso efetivo das criptomoedas para compra e venda de bens e serviços.
Entre janeiro e setembro de 2025, as operações com criptoativos comunicadas à Receita Federal somaram R$ 337,9 bilhões, um avanço de 16,6% em relação ao mesmo período do ano anterior. Apenas no terceiro trimestre, foram R$ 106,9 bilhões em transações. Esses dados mostram que o Brasil já opera em uma escala significativa de ativos digitais, com empresas e investidores cada vez mais ativos nesse mercado.
O Banco Central ajuda a dimensionar esse fenômeno. Em setembro de 2024, empresas brasileiras compraram US$ 1,429 bilhão em criptoativos no exterior, um crescimento de 40% em relação ao mesmo mês do ano anterior. É um volume expressivo de recursos cruzando fronteiras em formato digital. Ainda assim, isso não significa que esses ativos estejam sendo usados majoritariamente para liquidar operações de exportação ou importação.
Na prática, a participação das criptomoedas na balança comercial brasileira segue marginal. O comércio exterior do país movimenta centenas de bilhões de dólares por ano por meio de contratos de câmbio tradicionais. Diante desse universo, o uso de cripto como meio de pagamento para mercadorias e serviços ainda é exceção, não regra. O que cresce, de fato, são operações financeiras, transferências internacionais e estratégias de alocação de capital.
Isso acontece porque, apesar dos avanços regulatórios, o uso de criptomoedas no comércio exterior ainda é complexo do ponto de vista operacional. A legislação brasileira reconhece essas transações, exige declaração à Receita Federal e o recolhimento integral dos tributos, mas não oferece um arcabouço simples e padronizado para a execução dessas operações no dia a dia das empresas.
Hoje, muitas importações liquidadas com cripto são classificadas como operações sem cobertura cambial, o que exige atenção redobrada ao compliance. Nas exportações, o desafio está em receber ativos digitais, lidar com sua volatilidade e convertê-los em reais de forma eficiente, rastreável e alinhada às exigências fiscais. Para muitas empresas, especialmente as de médio porte, esse custo operacional ainda não compensa.
O resultado é um modelo que funciona quase como um “barter digital”: a mercadoria circula, os tributos são pagos, mas o sistema financeiro tradicional ainda não está plenamente integrado a esse fluxo. Falta interoperabilidade entre o mundo cripto e os processos contábeis, fiscais e financeiros das empresas.
Para que as criptomoedas deixem de ser um instrumento periférico e passem a ter relevância real no comércio exterior, o debate precisa evoluir. A próxima fronteira não é tecnológica, mas institucional. É preciso criar pontes seguras que permitam às empresas negociar internacionalmente sem assumir riscos adicionais de volatilidade, insegurança jurídica ou exposição operacional.
O Brasil já mostrou que tem apetite e escala para criptoativos. O desafio agora é transformar esse volume financeiro em eficiência econômica. Enquanto isso não acontece, continuaremos vendo números robustos nos relatórios, mas impactos ainda tímidos na balança comercial e na vida real das empresas.
(*) Amanda Prado, CEO da CorpX, instituição de pagamentos







