André Barros (*)
A aprovação do acordo entre o Mercosul e a União Europeia representa um avanço relevante na agenda de integração comercial do Brasil com um dos mercados mais importantes e exigentes do mundo. Ainda assim, é fundamental alinhar expectativas: os efeitos deste acordo não serão imediatos nem automáticos. Embora aprovado, o texto ainda passa por processos de ratificação e ajustes, e sua implementação ocorrerá de forma gradual, ao longo de alguns anos.
Esse intervalo entre a decisão política e a entrada em vigor prática é justamente o período mais estratégico para as empresas brasileiras. O impacto real do acordo dependerá menos do que está escrito no papel e mais da capacidade das organizações de se prepararem para atender às exigências que ele impõe.
Do ponto de vista do Comércio Exterior, o principal benefício está no ganho tarifário. A redução ou eliminação de alíquotas e a ampliação de cotas para determinados produtos tendem a tornar as exportações brasileiras mais competitivas e a ampliar o acesso ao mercado europeu. Isso cria espaço para aumento de volume, diversificação de mercados e fortalecimento da indústria nacional.
No entanto, esse benefício potencial só se materializa para quem consegue executar. O mercado europeu é rigoroso em compliance, qualidade, regras de origem, classificação fiscal, rastreabilidade e gestão de dados. Empresas que não conseguem comprovar a origem de seus produtos, manter documentação consistente ou atender às exigências regulatórias correm o risco de não acessar o benefício tarifário ou, em casos mais graves, de não conseguir exportar.
O acordo não favorece um porte específico de empresa. Ele favorece quem tem capacidade de execução com precisão. Grandes grupos e multinacionais normalmente partem com alguma vantagem, pois já possuem estruturas de governança, compliance e dados mais organizados. Por outro lado, empresas médias, já estruturadas em Comércio Exterior, tendem a ser mais ágeis na tomada de decisão e na priorização de portfólio, o que pode permitir que capturem oportunidades relevantes em menos tempo. No fim, o fator decisivo não é tamanho, mas maturidade operacional.
Hoje, muitos dos gargalos que podem impedir empresas brasileiras de transformar o acordo em exportações efetivas estão no dia a dia da operação. Dados mal estruturados ainda são comuns: classificações fiscais inconsistentes, descrições genéricas de produtos, falta de controle sobre insumos importados e ausência de trilhas de auditoria são alguns exemplos. Soma-se a isso a fragmentação dos processos, com excesso de planilhas, e-mails e múltiplos intervenientes desconectados, o que afeta a previsibilidade logística, formação de custos e competitividade.
As exigências ambientais e de rastreabilidade ampliam ainda mais esse desafio. O mercado europeu já demanda comprovação de conformidade ambiental, e mecanismos como o controle de carbono na fronteira tendem a impactar diretamente os exportadores brasileiros. Essas exigências não podem ser tratadas como projetos paralelos ou pontuais. Elas precisam ser incorporadas à rotina operacional, com controle por lote, vínculo com documentos de exportação e processos internos capazes de demonstrar conformidade de forma contínua.
É nesse ponto que a tecnologia passa a ser um fator decisivo ao apoiar empresas em operações complexas de Comércio Exterior, maximizando a capacidade de orquestrar processos, estruturar dados mestres, automatizar a gestão de classificação fiscal, regras de origem e documentação, além de manter rastreabilidade e integração com sistemas corporativos e governamentais. Condições essas fundamentais para que o acordo gere resultados concretos. Sem essa base operacional, o ganho tarifário tende a ficar apenas no potencial.
Iniciativas públicas, como painéis governamentais de dados e inteligência comercial, cumprem um papel importante ao oferecer uma visão macro do comércio entre Brasil, Mercosul e União Europeia. Elas ajudam a identificar produtos mais transacionados, países compradores e o cronograma de redução tarifária. No entanto, essa visão precisa ser traduzida para a realidade de cada empresa. É no nível do produto, do SKU (sigla em inglês para Unidade de Manutenção de Estoque) e da operação específica que se entende o impacto real do acordo sobre margens, custos e rotas logísticas.
Também é importante considerar que o acordo é bilateral. A redução de tarifas não afeta apenas as exportações brasileiras, mas também aumenta a competitividade de produtos europeus no mercado nacional. Setores como alimentos e bebidas, automotivo, máquinas, equipamentos e farmacêutico podem sentir maior pressão. Nesse cenário, dados e tecnologia tornam-se fundamentais para entender onde se perde e onde se ganha competitividade, ajustar estratégias e buscar compensações por meio de eficiência operacional, melhoria de qualidade e expansão das exportações.
O acordo Mercosul–União Europeia deve ser visto como um processo de transformação, e não como um evento isolado. O tempo entre a aprovação e a plena vigência precisa ser usado para estruturar dados, revisar processos, fortalecer compliance e preparar as empresas para um mercado mais exigente e competitivo. Quem agir agora estará mais bem posicionado para transformar uma vantagem potencial em resultado concreto. No Comércio Exterior, oportunidades não se concretizam apenas com boas notícias, mas com preparo, consistência e execução.
(*) André Barros, CEO da eComex e D2P, empresa brasileira especializada em soluções de alta tecnologia para gestão, otimização e automatização de operações de comércio exterior e logística internacional







