Inteligência Artificial, governança e competitividade: lições europeias para o Brasil

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Victoria Luz (*)

Participar do The International AI Summit 2025, na Bélgica, em dezembro passado, foi menos sobre conhecer novas ferramentas de Inteligência Artificial e mais sobre entender como a IA se tornou um tema central de estratégia econômica e política. Em Bruxelas, a discussão já não gira em torno de experimentação, mas de escala, governança e competitividade sistêmica.

Esse contraste ajuda a iluminar um ponto sensível para o Brasil: enquanto a Europa discute como estruturar a próxima década com IA, nós ainda debatemos se devemos regular, investir ou simplesmente “esperar o mercado”.

Inteligência artificial como política de desenvolvimento

Um dos aprendizados mais claros do evento foi o enquadramento da IA como política de Estado. Representantes da Comissão Europeia reforçaram que a adoção em larga escala só acontece quando há confiança. Essa visão está no centro do AI Act, o marco regulatório europeu.

Segundo a Comissão Europeia, no documento oficial do EU Artificial Intelligence Act (2024), o objetivo da regulação não é frear inovação, mas criar previsibilidade jurídica, classificar riscos e permitir que empresas saibam exatamente o que podem e o que não podem fazer ao desenvolver e usar sistemas de IA.

Para o Brasil, esse ponto é crucial. O debate em torno do Projeto de Lei 2338/2023, que cria o Marco Legal da IA, muitas vezes se perde entre o medo da burocratização e a defesa de uma autorregulação vaga. O que a Europa mostra é que regulação bem desenhada pode ser um catalisador de adoção, especialmente em setores tradicionais da economia.

Infraestrutura deixou de ser detalhe técnico

Outro eixo central da conferência foi infraestrutura. Não se falou apenas de modelos ou aplicações, mas de data centers, energia, chips e capacidade computacional. Segundo a International Energy Agency, no relatório Electricity 2024 Analysis and Forecast, os data centers já representam cerca de 1,5% do consumo global de eletricidade e podem dobrar esse percentual até 2030, impulsionados principalmente pela demanda de inteligência artificial. Esse dado apareceu repetidamente nos painéis como justificativa para tratar IA como tema estratégico de soberania.

Na prática, a União Europeia está investindo em AI Factories e Giga Factories, centros públicos de supercomputação voltados à pesquisa, inovação e uso industrial de IA. A lógica é simples: quem não controla minimamente sua infraestrutura não controla sua capacidade de inovar.

Para o Brasil, a analogia é direta. Hoje, somos quase totalmente dependentes de infraestrutura estrangeira para treinar modelos, rodar sistemas críticos e escalar aplicações. Isso não é um problema imediato, mas é um risco estrutural para setores como finanças, agronegócio, saúde e governo.

O maior gargalo não é tecnologia, é gente

Um ponto que apareceu de forma quase unânime nos debates foi o fracasso de projetos de IA por razões organizacionais, não técnicas. De acordo com a OCDE, no relatório AI in the Workplace (2024), mais de 70% dos projetos de inteligência artificial em grandes organizações europeias não avançam para produção por falta de capacitação, governança clara e integração com processos de negócio. A tecnologia existe, mas as pessoas e as estruturas não acompanham.

Esse diagnóstico conversa diretamente com a realidade brasileira. Vemos empresas pressionando times a “usar IA”, sem oferecer formação prática, diretrizes de uso ou clareza sobre objetivos. O resultado é uma profusão de pilotos que nunca viram resultado real.

Na Europa, a resposta tem sido investimento pesado em capacitação, desde programas de requalificação profissional até a inclusão de competências digitais e de IA nos sistemas educacionais. O aprendizado para o Brasil é direto: alfabetização em IA não pode ser restrita a desenvolvedores ou áreas técnicas. Ela precisa chegar à liderança, ao setor público e às pequenas empresas.

Pequenas e médias empresas no centro da estratégia

Outro aspecto relevante observado na conferência foi o foco explícito em pequenas e médias empresas. Diferente do discurso comum de que IA é território exclusivo de big techs, a Europa vem desenhando políticas para democratizar o acesso.

Segundo o World Bank, no relatório AI and Productivity Growth (2024), os maiores ganhos econômicos da IA não vêm apenas de inovações disruptivas, mas do aumento de produtividade média em pequenas e médias empresas. Por isso, países que conseguem levar IA para esse segmento tendem a capturar mais valor no longo prazo.

Na prática, isso se traduz em sandboxes regulatórios, hubs de inovação, acesso subsidiado à infraestrutura e apoio técnico. Para o Brasil, onde mais de 90% das empresas são PMEs, essa é talvez a lição mais importante: se a IA não chegar a esse grupo, o impacto macroeconômico será limitado.

O Brasil ainda tem tempo, mas não muito

O sentimento que fica após acompanhar as discussões na Bélgica é que o Brasil não está atrasado de forma irreversível, mas está em uma encruzilhada. Ainda temos a chance de aprender com a experiência europeia e adaptar essas lições à nossa realidade.

Segundo a OCDE, no estudo Global AI Policy Observatory (2024), países que conseguem alinhar regulação, infraestrutura e capacitação nos primeiros estágios da adoção de IA tendem a reduzir desigualdades e acelerar ganhos de produtividade de forma mais sustentável.

A AI International Conference 2025 deixou uma mensagem clara: a próxima década não será definida por quem tem o modelo mais avançado, mas por quem cria as melhores condições para que a inteligência artificial gere valor real para a economia e para a sociedade.

E isso, definitivamente, não é apenas uma decisão tecnológica. É uma escolha estratégica de país.

(*) Victoria Luz é especialista em Inteligência Artificial aplicada aos negócios e autora do best-seller “Além do Hype: Implementando IA com Propósito e Impacto”

 

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