O desafio não é rejeitar a China, mas evitar uma dependência irreversível

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Márcio Coimbra (*)

O terceiro Policy Paper da China para a América Latina e o Caribe transcende o roteiro diplomático convencional: é um manifesto de poder suave que visa integrar a região a uma órbita econômica e política centrada em Pequim. Sob a retórica de uma “comunidade de destino compartilhado”, apresenta-se uma alternativa pragmática às ingerências ocidentais. Contudo, sob a superfície de uma cooperação técnica aparentemente neutra, desenha-se uma estratégia para expandir a hegemonia chinesa, tornando os países latino-americanos dependentes de sua economia e, por extensão, subalternos politicamente.

A arquitetura dessa dependência revela-se na discrepância entre o discurso e a prática. Embora a Nova Rota da Seda prometa industrialização, os dados de investimento entre 2024 e 2026 demonstram uma concentração maciça em setores extrativos e infraestruturas críticas. O foco no controle da cadeia de suprimentos de minerais estratégicos — como o lítio no Cone Sul — e na consolidação de redes elétricas no Brasil e Peru indica que Pequim busca, primordialmente, sua própria segurança energética, mantendo a América Latina como fornecedora de insumos primários sob uma nova roupagem tecnológica.

O risco à soberania nacional é nítido no “aprisionamento tecnológico”. Ao exportar ecossistemas de governança digital através de padrões chineses de 5G, inteligência artificial e o sistema de satélites BeiDou, Pequim cria uma dependência estrutural de longo prazo. Politicamente, o apoio econômico atua como um freio à autonomia diplomática, condicionando investimentos ao rigoroso cumprimento do “Princípio de Uma Só China” (ferindo a autonomia de Taiwan) e ao alinhamento com as Iniciativas de Segurança Global.

Paralelamente, a dependência financeira é reforçada por acordos de swap cambial e liquidação em Renminbi, que ancoram as reservas locais às políticas monetárias chinesas, configurando uma nova forma de vassalagem econômica.

Para evitar a passividade, os governos latino-americanos devem adotar diretrizes de negociação soberanas. É imperativo exigir transferência efetiva de tecnologia e transparência radical nos contratos, evitando o uso de recursos naturais como garantia de dívida. Além disso, a negociação deve ser coletiva, pois o fortalecimento de blocos regionais e frentes temáticas permitiria que a região negociasse a partir de uma posição de força, mantendo a diversidade de parceiros globais e utilizando a competição geopolítica em seu favor.

Por fim, a aprovação de projetos que instituam autoridades de avaliação de investimento estrangeiro (já em tramitação no parlamento brasileiro) seria uma ação estratégica essencial neste cenário. Em última análise, o documento chinês é a certidão de nascimento de uma nova ordem hegemônica nos trópicos. A América Latina não pode se dar ao luxo de trocar antigas tutelas por uma dependência tecnológica e financeira irreversível. O “destino compartilhado” só deixará de ser um eufemismo para a subalternidade se a região despertar para a necessidade de uma soberania ativa e coordenada. A escolha é inadiável: ou a América Latina se posiciona como um bloco estratégico e autônomo, ou será reduzida a um mero insumo nas ambições imperiais da China para o século XXI.

(*) Márcio Coimbra é CEO da Casa Política e Presidente-Executivo do Instituto Monitor da Democracia. Conselheiro e Diretor de Relações Internacionais da Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais (Abrig). Mestre em Ação Política pela Universidad Rey Juan Carlos (2007). Ex-Diretor da Apex-Brasil e do Senado Federal. 

 

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