Turismo no Rio: do improviso à gestão sistêmica

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Gerir o Rio de Janeiro exige coragem política para planejar a cidade além do próximo feriado

Wagner Siqueira (*)

O Rio de Janeiro vive hoje um paradoxo. Enquanto a cidade atrai fluxos massivos de turistas, a estrutura de gestão pública parece atônita diante da exploração criminosa que ocorre à luz do dia. Para o Administrador profissional, o problema não é a sazonalidade do “verão” ou o volume de “turistas”, mas a crônica ausência de um projeto específico, técnico e permanente para o setor.

A proposta de tabelar preços para conter a extorsão é uma medida paliativa que ataca a consequência, não a causa. O tabelamento é uma ferramenta limitada, pois os comerciantes ilegais — os verdadeiros autores das extorsões — simplesmente ignoram normas escritas. Por isso, a gestão municipal deve priorizar o fortalecimento de quem atua na legalidade e a repressão severa ao clandestino, com uma ação governamental forte e ativa fiscalização. A Guarda Municipal e a Secretaria de Ordem Pública não podem ser apenas espectadores da desordem.

A gestão eficaz exige indicadores de desempenho e presença ostensiva para garantir o direito de ir e vir, sem os quais o turismo se torna uma “armadilha” que destrói a imagem da cidade a longo prazo, pois, mais uma vez, o Rio é “surpreendido” pelo verão e, mais uma vez, não estamos preparados.

Esse fluxo contínuo de turistas, que muito bem faz à nossa economia e deve ser explorado, requer que a gestão pública dimensione serviços públicos (limpeza, segurança, transporte) para o pico da demanda, e não para a média anual; e, é claro, entender que o turista explorado hoje é o detrator da cidade amanhã, o que afeta diretamente o futuro e a arrecadação pública.

A exploração denunciada, gravada e postada — como por exemplo cadeiras de praia e vagas de carros a 100 reais, caipirinhas a 150 reais, camarões a 500 reais e por aí vai — é o resultado da omissão gerencial. Gerir o Rio de Janeiro exige coragem política para enfrentar o ilegalismo e competência técnica para planejar a cidade além do próximo feriado. Não basta o bom humor do carioca; é preciso o rigor do Administrador.

(*) Wagner Siqueira – Presidente do CRA-RJ e do Fórum de Conselhos e Ordens Profissionais do RJ, ex-secretário de Administração da Cidade do Rio de Janeiro, Vogal da Junta Comercial do Rio de Janeiro, membro acadêmico da Academia Brasileira de Ciência da Administração (ABCA) e da Academia Nacional de Economia (ANE), além de ser autor de livros sobre gestão. 

 

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